Um longo Caminho
É fundamentalmente estranho pensar no tempo. Agora, aqui no meio do nada, olhando para Erestor, eu compreendo que o tempo é algo estranhamente desconectado de tudo o que conhecemos; os humanos são atados ao relógio, vivem em função dos ponteiros, correndo desorientados durante o dia indo ao banco, trabalhando, checando e-mails, gritando no trânsito...
Essa é a idéia de tempo.
Mas pensar em tempo como substância, aí sim, nós compreendemos o quão pequenos somos diante do universo com seus bilhões e bilhões de anos, suas estrelas antigas e luminosas, seus cometas errantes e suas supernovas destrutivas. Agora, eu não consigo assimilar a idéia desta longevidade exagerada... 4 mil anos... como alguém não enlouqueceria com esta idade? Ou será que Erestor é um louco e nós ainda não descobrimos?
Kaori estava boquiaberta, assim como Jacob e Jasper... Carlisle e Garret se mantinham pensativos e, por um motivo que eu não compreendia, Seth parecia prestes a cair na gargalhada de novo.
- Vocês parecem confusos, meus amigos – disse Erestor de repente, estava tranqüilo e estranhamente feliz.
- Perdoe-nos, Erestor – disse Carlisle polidamente – Nós estamos estupefatos com toda a sua história.
- Eu compreendo – respondeu ele – Vocês, atualmente, são as únicas pessoas que conhecem a minha história, a não ser, é claro, Aro, Caius e Marcus.
- Mas porque aqui? – perguntou Kaori de repente e havia espanto em sua voz – Por que no meio do nada? Longe de qualquer coisa? E não adianta afirmar que é para se esconder porque você não está se escondendo de ninguém aqui, ao contrário, aliás, tomou a cidade e as pessoas que vivem nela para si.
- Isso é uma coisa com a qual eu fiquei confuso, Erestor – emendou Jasper – Como você faz isso? Como controla todas estas pessoas? É um dom seu de controlá-las? Porque nós vimos as marcas e sabemos que você se alimenta delas... mas não consigo compreender como não as mata.
- Ah – estalou Erestor rindo abertamente – Eu lhes conto que sou o criador dos Volturi e vocês se interessam pela minha vida? Que espantoso...
E quase inconscientemente eu vi em Erestor uma sombra dos Volturi, de todo o glamour e o esplendor, toda a pompa, o jeito como ele riu francamente de nosso comportamento, os modos recatados com que se movia... algo que beirava a realeza. E eu soube, naquele momento, que quando Erestor criou Francesco como um vampiro, ele o doutrinou até moldá-lo à suas necessidades, esta pompa seria uma marca registrada dos Volturi. Mas eu não sentia maldade em Erestor.
- Eu não compreendo o espanto de vocês – disse ele nos olhando com astúcia – Afinal, os vampiros da família Cullen são peculiares justamente devido à sua íntima relação com humanos. Pelo que eu soube, vocês estudam em escolas e faculdades, trabalham com humanos e até se casam com eles – disse ele me lançando um olhar de entendimento – Então não sei qual é o problema de encontrarem um vampiro que vive entre os humanos... eu não quero o mal deles, estas criaturas tão tenras e cheias de vida, mas, infelizmente, não possuo a força de vontade necessária para viver sem o sangue deles. Desta forma, eu tive que me contentar em viver com o Gole Curto.
- Gole Curto? – eu perguntei sem me conter.
- Sim, o Gole Curto – reforçou Erestor – Eu não desejo a morte dos humanos, depois de tantos milênios você acaba se afeiçoando a esta raça belicosa e infantil, eu jamais fui apreciador de sangue animal... o sabor é terrivelmente pálido, quase o mesmo que beber água suja. Então, depois de muitos anos de prática eu desenvolvi o Gole Curto, que nada mais é do que o auto-controle em beber o sangue humano; eu posso fazer isso sem matá-los.
- Isso é possível? – assombrou-se Jasper, ele era o único de nós que sempre teve dificuldades em manter sua dieta “saudável” e a aparição de um vampiro que drenava sangue humano sem matá-los era uma tentação à sua resistência.
- Sim... mas é um trabalho dispendioso, centenas de humanos morreram por minhas mãos antes de eu dominar a técnica.
- E ainda assim, as pessoas deste lugar são fiéis a você? – perguntou Jacob desconfortável com a revelação de Erestor.
- Não entenda isso como fidelidade – respondeu ele – Trata-se de um fenômeno que nem mesmo eu consigo compreender; eu decidi escolher apenas algumas pessoas especiais para beber do sangue; escolhi as mais interessantes, as mais belas e as pessoas de melhor índole. Ao malfeitor, tempos atrás eu levei a morte, agora, às pessoas de coração puro eu dou a vida. Descobri que ao sugar um gole de sangue e injetar uma pequeníssima quantidade de veneno, as pessoas de quem me alimento se tornam mais fortes e imunes a doenças, se tornam mais vívidas, mais cálidas, mais belas e joviais... eu as abençôo e em troca elas são fieis a mim. Eu sou como uma droga para elas, o mais doce veneno do escorpião, elas são viciadas em mim e no que lhes posso proporcionar... eu lhes dou mais vida e elas me mantém vivo.
Erestor era um ser estranho, ele falava numa cadência lenta de séculos passados e suas palavras flutuavam no ar como um monólogo lento e dedicado, não desviava o olhar de nenhum de nós e, ao mesmo tempo, parecia estar entediado e preso em lembranças a muito tempo perdidas. Ele parecia realmente crer que criava um rebanho próprio, um harém de escolhidos que o amavam e o protegiam, que o alertava de qualquer mal ou de qualquer intruso.
Eu não aprovava este método, Erestor podia não matar as pessoas que habitavam este lugar, mas, ao mesmo tempo, desenvolveu uma espécie de encantamento que ligava as pessoas por ele atacadas como se fossem servos hipnotizados. Mas no momento em que pensei em repreendê-lo, no instante em que pensei em me levantar e dizer que ele não era diferente de nenhum dos Volturi eu percebi o olhar severo de Carlisle sobre mim.
E eu soube o que aquele olhar significava: silêncio! Erestor era um vampiro muito velho e sua mente funcionava de uma forma diferente da nossa, Carlisle tinha razão, não sabíamos ao certo como ele reagiria sendo reprimido por um vampiro tão jovem como eu, no mínimo se negaria a continuar esta conversa.
- Erestor... como conseguiu fugir de Volterra? – perguntou Carlisle seriamente colocando fim à nossa curiosidade sobre a vida cotidiana do vampiro.
Ele se recostou na poltrona confortável, olhou para nós demoradamente e suspirou alto, seus olhos perderam-se instantaneamente pela janela aberta e para o dia claro que raiava lá fora... seus pensamentos pareciam recuar até uma época distante e todas as lembranças lhe pareciam tristes.
- Eu havia me enfadado de permanecer em Volterra... após séculos naquele palacete, naquelas colinas verdejantes e daquela pompa de realeza e dos banquetes horrendos regados a sangue que os três irmãos promoviam... eu resolvi partir. Tentei convencer Francesco e vir comigo... eu implorei mas ele não queria deixar sua preciosa cidade. Francesco se perdeu por Volterra... enlouqueceu por ela... e no fim a sua amada cidade foi palco de sua morte.
- Resolvi partir para ver o que o mundo tinha de novo – continuou ele – Naquelas épocas longínquas as viagens não eram fáceis mesmo para um vampiro... as distâncias eram maiores e as pessoas menos amigáveis. Naquelas épocas os povos eram bárbaros e atrasados e viviam em guerras constantes... eu rumei para a Ásia e para o Oriente para rever o que restara de meu antigo mundo... fiquei vinte anos longe de Volterra...
- Vinte anos!? – espantou-se Seth e Erestor olhou-o incomodado pela interrupção.
- Meu caro menino – disse ele – Vinte anos para alguém que possui 4 mil não são nada, quando se vive demais os anos são indiferentes e sua contagem é tão desnecessária quanto enfadonha. Vinte anos quase não fizeram diferença, não cheguei a nem mesmo sentir falta de casa... mas como Francesco não retornava as minhas cartas eu decidi voltar à Itália.
- Meu horror foi imenso – continuou Erestor parecendo verdadeiramente desolado, eu quase podia ver as lembranças se formando em sua mente – Eu cheguei ao castelo e nas câmaras do subsolo haviam apenas três tronos ao invés de cinco... lembro-me do sorriso zombeteiro no olhar três irmãos. Caius, Aro e Marcus me olharam com divertimento e contaram rindo que haviam se cansado de seu pai, Francesco foi destruído por um novo servo que Marcus havia criado naquele meio tempo... um vampiro poderoso chamado Flávius Aurélius.
- O senhor dos Mercadores da Morte – suspirou Garret.
- Exato, mas naquela época ele ainda não comandava um exército tão grande... isso aconteceu tempos depois. Eu pensei que minha existência chegaria ao fim assim como aconteceu com Francesco... meu bom amigo; mas eu desconhecia a malícia dos três irmãos... eles evoluíram consideravelmente seu poder de dominação.
- As masmorras que eu e Francesco construíramos a séculos agora eram celas encantadas, as portas que as guardavam foram enfeitiçadas por um vampiro-feiticeiro que Caius minuciosamente escolhera para servi-lo. Lá eles me atiraram enquanto riam de mim chamando-me de velho caquético... e lá eu fiquei preso por tanto tempo que perdi a noção dos anos, numa masmorra escura e solitária.
- Como não morreu de sede? – perguntou Jasper.
- Nenhum vampiro morre de sede, meu jovem – respondeu Erestor em seu tom professoral – Você fica fraco e quase enlouquece, pede que o matem de tanta sede, perde a noção dos dias e da noite, da idade e de quem você é... a sede causa dor. Mas ela é incapaz de lhe matar... depois de anos, você acaba apenas ficando atirado num canto, destruído sobre sua própria miséria.
- Mas então... como? – perguntou Kaori impaciente.
- Depois de séculos e séculos... eu devo admitir que minha fuga das catacumbas de Volterra se deu por uma grande e inesperada sorte do destino. Eu já havia adormecido há muitos anos apesar de sempre ouvir pelos corredores enquanto os Volturi trancafiavam a seu bel prazer todos aqueles que os desafiavam... muitos vampiros foram presos e libertados depois de jurarem lealdade aos três irmãos, alguns levavam séculos mas a maioria cedia quando a sede apertava.
- Então é assim que os Volturi convencem seus servos? – perguntou Jacob mas sua voz saiu baixa como se pensasse para ele mesmo – Eles prendem as pessoas e as torturam através da fome até romperem sua força de vontade a adquirirem sua fidelidade. É isso que aguarda Bella, Nessie, Alice e Quil.
- Se elas se recusarem a servi-los... sim, é o que as espera – disse Erestor categórico – E acreditem, não há a menor chance de elas quebrarem os encantamentos que trancam as celas. Há vampiros nas masmorras... vampiros presos naquelas celas há milênios... presos desde a época em que eu fui trancafiado. Vampiros mais poderosos que suas filhas, Carlisle, então como podem imaginar... elas jamais poderão fugir por escolha própria. Terão de se aliar aos Volturi...
- Elas não irão... – rugiu Jacob – Renesmee jamais faria isso... ela jamais seria uma Volturi.
- Aro, Caius e Marcus possuem seus próprios métodos de persuasão – respondeu Erestor – Mas na minha época estes métodos não existiam e apenas as prisões surtiam efeito... ninguém jamais fugiu delas. A não ser eu... e apenas graças a Forge.
- Forge? – perguntou Seth imediatamente.
- Sim... Forge. Forge fora um dos inúmeros filhos de Volterra... fora criado por Caius há muitos e muitos anos, antes mesmo da morte de Francesco ele já havia sido transformado. Caius o transformou e o enviou através do mundo para descobrir alguns segredos que interessassem aos vampiros... ele partiu enquanto eu e Francesco ainda governávamos Volterra e só retornou 150 anos depois...
- Forge voltou diferente... andou pelos países da América central... África e os confins do Tibete e as vastidões infindáveis dos desertos da Austrália, quando chegou novamente a nós, sua transformação era assustador. Forge aprendeu as artes da magia... da magia negra e se tornou um mestre feiticeiro de imenso poder.
- Ah, qual é! – disse Jacob impaciente – Esse negócio de vampiros-feiticeiros nunca entrou na minha cabeça... para mim não passa de mito, como é que mágica entra nesta história? Agora um vampira macumbeiro me aparece na história e nós temos que acreditar nesta baboseira de catacumbas encantadas?
Eu vi quando Erestor silenciou, e seu olhar de censura foi o suficiente para calar até mesmo o poderoso Jacob Black, ele levantou-se lentamente para informar que não faria nada contra nós. Seu semblante era minimamente chateado, como se ele não suportasse a nossa ignorância e nossa impaciência. Como se nossa juventude gritasse contra sua antiguidade.
- Eu acho surpreendente – ele falou enfim enquanto mexia em uma gaveta tirando dela um longo charuto, em seguida voltou e sentou-se lentamente, acendeu o charuto tragando várias vezes, um cheiro doce de hortelã invadiu o ambiente – Já viajei por muitos lugares neste mundo, Jacob Black, já conheci cidades e florestas tão profundas que quase nenhuma criatura viva algum dia pisou... e neste mundo absurdamente grande, no meio de tantos lugares que você nem sonha... considera realmente que você e sua pequena tribo Quileute são os únicos transmorfos que existem?
- Do que está falando? – perguntou Seth com cuidado, seus olhos se estreitaram e nós sentimos o clima ficar tenso.
- Soube de tribos espalhadas pelo mundo... uma tribo africana onde os guerreiros transformam-se em velozes guepardos gigantes... uma nação esquimó isolada onde os mais fortes assumem a forma de imensos ursos polares. Enfim... nós estamos sentados aqui, crianças, e vocês estão diante de um vampiro de mais de 4 mil anos de idade, suas esposas e amigos foram raptados por um exército sanguinário... e você duvida que exista magia no mundo? Não, meu caro senhor Black... há muita magia no mundo e o senhor está rodeado por ela... existem encantamentos e existem vampiros-feiticeiros... quer o senhor creia neles... ou não.
- Perdoe a indiscrição de Jacob, Erestor – eu falei fuzilando Jake com o olhar, as duvidas dele não ajudariam em nada a nossa pressa – Continue contando a história de Forge.
Erestor tragou longamente seu charuto, a fumaça espiralava-se no ar até desvanecer sobre o brilho do sol da tarde, todos estávamos inquietos mas aos poucos fomos relaxando, enfim, percebemos que não deixaríamos a casa de Erestor naquele dia... aquele velho ancião tinha muita história para nos contar.
- Bem – disse ele – Forge habitava uma casa rústica fora dos muros da cidade, depois de alguns anos se apaixonou por uma humana e se casou com ela transformando-a em uma vampira logo em seguida, você já deve ter ouvido esta história antes – Erestor disse para mim com um sorriso zombeteiro nos lábios – Mas Forge não era um homem mal, nem mesmo um vampiro mal, entretanto, sua personalidade abstrata de um homem ligado às artes mágicas irritava Aro; Aro obrigou Forge a se manter afastado e ele só aparecia em Volterra quando solicitado para algum trabalho.
- Eu conversei raras vezes com Forge, mas ele parecia um homem alegre e inteligente, bem articulado e nutria uma interessante peculiaridade: apreciava muito os humanos apesar de jamais ter deixado de se alimentar deles – continuou Erestor – Para tanto que acabou cedendo aos pedidos de sua esposa e, por fim, “adotou” uma filha tornando-se assim... um vampiro de família. Pelo visto, há uma necessidade básica em alguns imortais em constituírem família... eu realmente acho isso muito perigoso.
- Como construir uma família poderia ser perigoso? – perguntou Kaori.
- Porque as famílias têm como base os laços do amor – respondeu Erestor tragando novamente seu charuto – E o amor é um sentimento extremamente perigoso aos imortais, no fim é um erro nos considerarmos humanos e é isso que os Volturi não compreendem; eu preservo os gostos pelos prazeres humanos e vocês comprovam isso no meu vinhedo e nesta bela casa, assim como vocês se mantém humanos na essência com sua família. Mas é um erro... os Volturi vivem como deuses e nós, no caso, como meros mortais.
- Não entendo porque o amor é perigoso aos imortais – teimou Kaori denunciando sua essência feminina que tende a defender o amor até o fim.
- Por que o amor, minha cara Kaori, ao contrário do que crêem os mortais, não é nem um pouco imortal – disse Erestor polidamente – É muito fácil para um ser que vive em média oitenta anos falar de amor eterno, mas para nós, que somos eternos... o amor tende a se desgastar com o tempo. Vocês ainda descobrirão isso...
- Eu jamais deixarei de amar Renesmee – rosnou Jacob uma vez mais.
- Mas e muito fácil afirmar isso, Jacob Black – riu Erestor – nenhum de vocês viveu muito tempo... na verdade, perto de mim não passam de sementes; mesmo Carlisle, que dentre vocês é o mais antigo, não passa de uma criança perto de mim. O amor é desgastado com o tempo, para um mortal é fácil falar de amor, há casamentos entre eles que duram 50, 60 anos... mas o que são cinco ou seis décadas diante dos milênios? O amor tende a se tornar monótono... pode até não desaparecer mas a atenção dos imortais desvia-se com o tempo e o amor se torna lento e passa a ser apenas idealizado ou realocado no coração de outra pessoa... no nosso caso, um mortal que acabaremos transformando em imortal para suprir nossa necessidade de afeto.
Eu parei por um instante infinitesimal, neste momento, tudo pareceu adormecer e acomodar-se silenciosamente nas linhas do tempo... eu podia observar os fótons de luz explodindo sobre os objetos iniciando as imagens que enxergava, sentia o vento deslocar sua massa de ar sobre as copas das árvores e percebi cada pequeno detalhe da expressão de cada um na sala.
Neste lapso de tempo ao qual eu era o único senhor de meus pensamentos, eu refleti sobre as afirmações de Erestor; sobre o amor não perdurar por toda a eternidade. Seria assim mesmo? Será que daqui a um ou dois mil anos eu deixaria de amar Bella? Neste instante pelo menos a idéia era completamente absurda... mas eu compreendia o ponto de vista de Erestor, do alto de seus 4 mil anos de idade qualquer relacionamento seria estranho se durasse tantos séculos.
- Mesmo os mais antigos não amam por muito tempo – disse Erestor me tirando de meus devaneios – Eu amei apenas Francesco nesta minha longa caminhada e agora amo uma menina que mora nesta cidade minúscula... os imortais amam lentamente e as vezes amamos apenas uma ou duas vezes. Mas o mais velho entre nós já tem 7 mil anos de idade e mesmo ele amou apenas três vezes... mesmo os Volturi podem amar, como sabem bem.
- Eles não amam ninguém – trovejou Jasper.
- Ah, mas é claro que amam – riu Erestor – Marcus nunca mais amou ninguém desde que Didyme desapareceu... assim como Caius é parceiro de Athenodora a séculos e nunca amou outra vampira.
- E Aro? – perguntou Kaori não evitando sua curiosidade.
- Aro amou uma menina antes de Sulpicia... uma linda e rica veneziana chamada Bianca. Ah, eu me lembro até hoje de Bianca... uma garota de olhos verdes como o mar, os cabelos dourados e longos e o rosto mais angelical que eu um dia já conheci... emoldurado numa inteligência incomum e em um gênio forte e temperamental. Era linda em todos os sentidos e Aro lutou muito pouco conta a vontade de transformá-la, naquela época eu ainda tentava ensiná-lo sobre os cuidados e responsabilidades em se transformar alguém.
- Mas, obviamente, Aro não me escutou e Bianca se tornou uma de nós. Por Amurru*, como ela ficou ainda mais terrivelmente bela com sua transformação, era uma das vampiras mais lindas que já avistei... se não a mais bela. Tornou-se extremamente imponente e o fato de todos a paparicarmos e darmos a ela uma vida de princesa, Bianca se tornou a companheira ideal de Aro... a não ser pelo detalhe dos tempos e após alguns séculos, Bianca deixou de amar Aro.
- Nossa.. . – impressionou-se Kaori – E o que aconteceu?
- Aro a confinou nas catacumbas mágicas de Volterra um pouco depois de eu mesmo ter sido aprisionado lá... Bianca foi a segunda prisioneira de Volterra e ela habita sua prisão até hoje.
- Meu Deus... – disse Kaori levando as mãos à boca – Que horror!
- Esse cara é um sádico psicótico – opinou Garret.
- Pobre criatura... – disse Kaori não se conformando.
- Sim... pobre Bianca – suspirou Erestor – Eu ainda a imagino lá, com toda a sua classe, sua finura e seus modos impecáveis, trancafiada há séculos num lugar escuro e sem vida.
- Realmente, Aro é um louco – eu disse com firmeza – Mas eu gostaria que voltássemos ao assunto, Erestor... você estava nos contado sobre a família de Forge.
- Sim, sim... me perdoe – disse Erestor se aprumando na poltrona – Como eu dizia antes de nosso desvio filosófico sobre o amor, Forge e sua esposa Salesiana conheceram uma pobre menina vinda de terras longínquas e acabaram transformando-a em uma imortal. Chamava-se Charlotte e era uma menina quieta e desconfiada apesar de possuir uma beleza estranha e exótica... era tratada como filha e Forge e Salesiana a amavam imensuravelmente, tanto que os dois ensinaram à menina os segredos da magia e ela completou o clã dos três vampiros feiticeiros que habitavam os arredores de Volterra.
- Ótimo – disse Jacob novamente impaciente – E o que estes três vampiros têm haver com a nossa história?
- Tudo – respondeu Erestor – Pois estes vampiros foram os confeccionadores dos feitiços que guardam Volterra... e são os únicos, tirando Aro, que conhecem os encantos e a forma de desativá-los.
- E eles ainda estão vivos? – perguntou Carlisle.
- Nem todos – e uma sombra de tristeza cobriu os olhos do velho vampiro – Nem todos... e a história deles se entrelaça à minha... pois foi justamente Forge quem me libertou da prisão eterna.
- Ele lhe libertou? – estranhou Garret.
- Sim... e essa é outra história que está envolvida a todos. Há quase um milênio atrás, quando eu já estava preso há muito nas catacumbas, eu ouvi, de minha cela, o rugido de destruição e luta. Algo que até então eu jamais ouvira, e o som dos gritos surgiu-me estranho enquanto quebrava o silêncio de minha solidão, era o ronco de uma guerra e eu fiquei surpreso por ouvir este som novamente quando achava que o mundo havia se tornado mais civilizado.
- Os gritos de horror, o canglor das espadas, choque de metal com metal, o som do vento uivando lá em cima tão alto que até eu pude ouvir... e as paredes tremiam e parecia que toda a fortaleza se desmancharia em pó. Esta luta ou guerra ou o que quer que fosse durou horas até que o brado de sua fúria começou a aumentar e aumentar e finalmente explodiu pelo corredor onde eu estava preso...
- Eu nada podia ver, apenas ouvir – disse Erestor e sua voz baixou até transformar-se num sussurro – Mas eu senti quando um grande poder passou por ali em meio a gritos de raiva, não sei o que era... nem sei quem era... mas parecia ter um poder absurdo... algo que eu jamais imaginava existir. Sei que os calabouços tremeram à sua passagem e sei que ouvi sua voz amaldiçoando os Volturi enquanto era empurrado para o fundo do corredor pela força de muitos vampiros e pela voz estridente de Flávius Aurélius.
- E o som continuou por mais um tempo até que o silêncio modorrento recaiu novamente sobre as catacumbas... eu senti quando os três irmãos Volturi desceram da destruição da superfície e atravessaram o corredor atrás da luta que havia findado. Passaram-se horas e horas e eu não sabia o que estava acontecendo... queria gritar para que me contassem mas eu não podia... ninguém me ouviria... só que então veio a surpresa e a sorte que me libertou.
- Eu estava esperando o próximo movimento, o próximo acontecimento quando, inesperadamente, a porta de minha cela brilhou intensamente e abriu-se num estalo e num escancarar lento e cheio de rangidos. E da porta e da fraca luminosidade dos archotes do corredor, um vampiro surgiu caindo logo em seguida e se atirando em meus braços, eu o segurei instintivamente e quando a luz amarela tocou seu rosto eu vi que era Forge. Estava horrivelmente ferido, praticamente morto e sua garganta cortada quase inviabilizava sua fala, estava despedaçado em todos os sentidos... seu corpo já estava praticamente destruído... ainda assim... ele falou comigo.
“Erestor” – disse-me ele à beira da morte com uma dificuldade agonizante – “Ele me traiu... Aro me traiu... e agora vai dominar tudo... você precisa avisar minha esposa e minha filha para fugirem. Aro não quer arriscar que mais ninguém saiba os segredos das prisões... Salesiana e Charlotte sabem e por isso elas correm perigo... vá... fuja... eu estou condenado, mas você pode salvá-las... você pode impedir que Aro as mate... por favor, Erestor... faça isso e em troca eu lhe dou a sua liberdade”.
“Mas Forge” – eu perguntei a ele enquanto a aflição me tomava – “O que aconteceu... que batalha foi essa? E quem está preso aqui? Quem é tão importante assim a ponto de Aro não querer dividir este segredo?
“Aquele que não deve ser libertado” – ele disse agonizando – “Agora vá... Erestor.. e salve sua vida e a de minha família”.
E então eu fugi.
- Mas... começou Seth – como você passou por todo mundo?
- Porque estavam todos mortos – disse Erestor tranqüilamente – Na superfície haviam centenas de vampiros mortos e incendiados; o pátio estava semi destruído e tudo era um caos. As pessoas que habitavam ali na cidade haviam fugido... eu nunca presenciara tamanha destruição mesmo nos dias antigos onde Volterra fora constantemente atacada.
- Mas o que aconteceu afinal? – quis saber Garret.
- Eu não sei. Afinal, eu estava preso há muito tempo... as datas não me são muito certas e eu apenas ouvi o rumor da batalha... ninguém sabia o que havia acontecido... nem mesmo Salesiana e Charlotte. Elas não tinham consciência sobre o trabalho que Forge fora fazer e quando eu cheguei com as notícias elas ficaram arrasadas depois de confirmarem que eu dizia a verdade; mas não se demoraram um segundo a mais depois de meu aviso, elas partiram no mesmo instante que eu. E é aqui, senhores, que eu termino as minhas histórias...
- Ou seja... viemos até aqui apenas para não obter qualquer resposta positiva... – completou Seth azedo.
- Ora... mas eu acabei de revelar a única saída que lhes resta... – disse Erestor surpreso – Ou será que vocês não prestaram atenção a nada do que eu disse?
- Então, basicamente, pelo que compreendi – disse Carlisle se manifestando, ele estava sentado com as pernas cruzadas e as mãos trançadas apoiadas no queixo, seu ar contemplativo revelava seu entendimento da coisa toda – Se houver a possibilidade de que Bella, Alice, Nessie e Quil estejam presos nas masmorras de Volterra, cujas quais são trancadas por encantamento... nós precisamos dos conhecimentos de Salesiana e sua filha para podermos libertá-las?
- Exato – confirmou Erestor.
- Ah, eu não acredito! – disse Jacob decepcionado – Nós viemos até aqui para encontrar este vampiro e agora ele nos diz que ainda temos que correr atrás de duas bruxas?
- Vocês não têm escolha, Jacob Black. Além de Aro Volturi, apenas Salesiana e Charlotte conhecem o segredo dos encantamentos das celas de Volterra... sem elas vocês poderão até invadir o palácio mas jamais conseguirão libertá-las caso Aro tenha as aprisionado lá. Nenhuma força no mundo é capaz de mover aquelas portas a não serem as palavras que desfazem os encantamos.
- E estas duas bruxas ainda estão vivas? – perguntou Jasper.
- Sim... elas se esconderam de todos para que os Volturi não as encontrassem.
- E você sabe onde elas estão? – eu perguntei cada vez mais aflito.
- Não ao certo... possuo apenas uma idéia... não seu paradeiro exato – respondeu Erestor pensativo – Viajamos apenas meio dia juntos, e elas confidenciaram o local para onde fugiriam e para onde estariam seguras dos Volturi: o extremo norte da Escócia.
- Escócia!!?? – gritou Seth – Não tinha um lugar um pouco mais longe?
- Eu não acredito nisso... – suspirou Jasper – Mais uma viagem...
- Em que lugar exato na Escócia... Erestor? – perguntei temendo que ele não soubesse.
- O que vou lhes dizer agora, tratem com suspeitas, pois considero boato – ele respondeu muito mais sério que o normal – Tudo o que sei é de um lugar que ouvi apenas através do sussurro das duas e de informações que viajantes desgarrados me trazem, mas tudo indica que ao norte extremo da Escócia, passando as pradarias quase infinitas das highlands, muito além das montanhas que lhe barram o caminho, há uma pequena vila costeira chamada Wick. Há uns 200 quilômetros a oeste rumando para o interior do país existe um lugar desolado de onde a população local não se aproxima pois reza as lendas antigas que é o lugar de repouso de duas bruxas poderosíssimas... este lugar é chamado de Pântano da Desolação.
- Gente... que coisa absurda – riu Seth mais uma vez – Pântano da Desolação? Caraca, não tinha um nomezinho mais horripilante não? E é engraçado como este povo só se esconde em lugares legais, não é? Tipo, um vulcão... um pântano... vocês nunca pensaram em se esconder no Caribe ou na Flórida?
- Meu Deus – riu Garret também – Acho que Emett reencarnou em Seth.
- Pensei a mesma coisa – concluiu Carlisle olhando de soslaio para Seth.
- Você me mata de vergonha – assoprou Jacob desamparado.
- Pessoal... – eu interpus – Foco. Erestor, você nem ao menos tem certeza?
- Não – ele respondeu lacônico – Entendam, já faz quase mil anos que isso aconteceu... e eu nem ao menos posso afirmar que elas ainda estão lá, ou que realmente se esconderam neste local. Tudo o que sei é que são as duas únicas vampiras, além de Aro, que conhecem os segredos dos encantamentos criados por Forge e sem elas... não haverá esperanças de entrar em Volterra.
- Mas se os rumores chegaram até você, como os Volturi nunca tentaram localizá-las, porque provavelmente esses rumores também foram ouvidos em Volterra.
- Porque se trata de duas feiticeiras, Edward. Vejam bem, dizem que há um encantamento que impede que os inimigos as encontrem... e é um encantamento muito bem elaborado: apenas aqueles que desejam encontrá-las, encontrá-las sem lhes fazer mal, poderão descobrir o local exato onde Salesiana e Charlotte moram.
- Mais essa ainda... – resmungou Seth.
- E essa nem é a parte mais difícil... – continuou Erestor – Francamente, mesmo que por uma sorte absurda, vocês encontrem as duas... não há força na terra que as faça auxiliá-los... as duas tem verdadeiro pavor dos irmãos Volturi e da cidade de Volterra. Eu não as culpo, afinal, Aro quer a cabeça das duas.
- O que você acha? – eu perguntei para Jasper que era o nosso estrategista.
- Estamos ferrados – ele respondeu simplesmente.
Quando deixamos a casa de Erestor o sol já se punha e as sombras esguias lançavam seus dedos frívolos sobre o mundo... o velho vampiro nos acompanhou até os limites de sua terra, no exato caminho pelo qual chegamos. Nos fez provar suas uvas que eram doces e suculentas... Seth e Jacob sempre se espantam quando ingerimos algum alimento humano, vampiros fazem isso o tempo todo, mas não em grandes quantidades.
Seth, incrivelmente, ainda ganhou uma garrafa de um vinho tinto finíssimo da safra Erestor... o velho olhou-o rindo e disse algo como “tome garoto, acho que você anda precisando ficar bêbado um pouco”.
Em seguida nos despedimos do velho Erestor, ele nos olhou demoradamente estudando cada um de nossos rostos e percebeu o medo que guardávamos, percebeu minha falta de esperança e minhas forças minguantes. Acabou sorrindo um sorriso meigo e preocupado e eu descobri que no fim das contas gostava de Erestor... era um homem milenar de modos refinados e que guardava o gosto pelas coisas boas da vida... um vampiro que queria apenas a paz e que apesar de se alimentar de humanos... não os matava.
- Adeus, então, meus amigos... eu lhes desejo a maior sorte do mundo... e que vocês encontrem o que procuram – disse ele enquanto nos afastávamos e havia um traço de tristeza em seu rosto jovem e ao mesmo tempo antigo – Se vocês sobreviverem me avisem... eu adoraria conhecer toda a sua família, que é tão especial a ponto de vocês aceitarem morrer por ela.
- Adeus, Erestor – gritou Carlisle – Fique em paz.
- Carlisle – gritou Erestor uma vez mais e o timbre de sua voz nos fez virar novamente para encará-lo – Lembre-se, cuidado com as portas que você abre em Volterra... naquelas catacumbas habita um mal inominável... naquelas celas um poder gigantesco foi celado... tome muito cuidado. Não se dirija até a última profundidade das catacumbas, pois foi lá que este mal foi aprisionado... é lá que habita Aquele que não deve ser libertado.
E com o aviso de Erestor ecoando em nossas mentes, a noite encobriu-nos a todos... rumávamos a toda velocidade para o aeroporto mais próximo de onde alçaríamos vôo rumo à Escócia e seus campos eternos e gelados. Eu olhei para meus companheiros e via a desesperança em seus olhos cansados... esta jornada nos pregara mais uma peça, viemos atrás de Erestor apenas para descobrir que ainda tínhamos um longo caminho pela frente.
Eu sentia Bella e Renesmee ainda mais distantes de mim.
E agora eu corria para o fim do mundo... em busca das bruxas Salesiana e Charlotte...
Nem ousando imaginar o que faríamos se elas se recusassem a nos ajudar.
Essa é a idéia de tempo.
Mas pensar em tempo como substância, aí sim, nós compreendemos o quão pequenos somos diante do universo com seus bilhões e bilhões de anos, suas estrelas antigas e luminosas, seus cometas errantes e suas supernovas destrutivas. Agora, eu não consigo assimilar a idéia desta longevidade exagerada... 4 mil anos... como alguém não enlouqueceria com esta idade? Ou será que Erestor é um louco e nós ainda não descobrimos?
Kaori estava boquiaberta, assim como Jacob e Jasper... Carlisle e Garret se mantinham pensativos e, por um motivo que eu não compreendia, Seth parecia prestes a cair na gargalhada de novo.
- Vocês parecem confusos, meus amigos – disse Erestor de repente, estava tranqüilo e estranhamente feliz.
- Perdoe-nos, Erestor – disse Carlisle polidamente – Nós estamos estupefatos com toda a sua história.
- Eu compreendo – respondeu ele – Vocês, atualmente, são as únicas pessoas que conhecem a minha história, a não ser, é claro, Aro, Caius e Marcus.
- Mas porque aqui? – perguntou Kaori de repente e havia espanto em sua voz – Por que no meio do nada? Longe de qualquer coisa? E não adianta afirmar que é para se esconder porque você não está se escondendo de ninguém aqui, ao contrário, aliás, tomou a cidade e as pessoas que vivem nela para si.
- Isso é uma coisa com a qual eu fiquei confuso, Erestor – emendou Jasper – Como você faz isso? Como controla todas estas pessoas? É um dom seu de controlá-las? Porque nós vimos as marcas e sabemos que você se alimenta delas... mas não consigo compreender como não as mata.
- Ah – estalou Erestor rindo abertamente – Eu lhes conto que sou o criador dos Volturi e vocês se interessam pela minha vida? Que espantoso...
E quase inconscientemente eu vi em Erestor uma sombra dos Volturi, de todo o glamour e o esplendor, toda a pompa, o jeito como ele riu francamente de nosso comportamento, os modos recatados com que se movia... algo que beirava a realeza. E eu soube, naquele momento, que quando Erestor criou Francesco como um vampiro, ele o doutrinou até moldá-lo à suas necessidades, esta pompa seria uma marca registrada dos Volturi. Mas eu não sentia maldade em Erestor.
- Eu não compreendo o espanto de vocês – disse ele nos olhando com astúcia – Afinal, os vampiros da família Cullen são peculiares justamente devido à sua íntima relação com humanos. Pelo que eu soube, vocês estudam em escolas e faculdades, trabalham com humanos e até se casam com eles – disse ele me lançando um olhar de entendimento – Então não sei qual é o problema de encontrarem um vampiro que vive entre os humanos... eu não quero o mal deles, estas criaturas tão tenras e cheias de vida, mas, infelizmente, não possuo a força de vontade necessária para viver sem o sangue deles. Desta forma, eu tive que me contentar em viver com o Gole Curto.
- Gole Curto? – eu perguntei sem me conter.
- Sim, o Gole Curto – reforçou Erestor – Eu não desejo a morte dos humanos, depois de tantos milênios você acaba se afeiçoando a esta raça belicosa e infantil, eu jamais fui apreciador de sangue animal... o sabor é terrivelmente pálido, quase o mesmo que beber água suja. Então, depois de muitos anos de prática eu desenvolvi o Gole Curto, que nada mais é do que o auto-controle em beber o sangue humano; eu posso fazer isso sem matá-los.
- Isso é possível? – assombrou-se Jasper, ele era o único de nós que sempre teve dificuldades em manter sua dieta “saudável” e a aparição de um vampiro que drenava sangue humano sem matá-los era uma tentação à sua resistência.
- Sim... mas é um trabalho dispendioso, centenas de humanos morreram por minhas mãos antes de eu dominar a técnica.
- E ainda assim, as pessoas deste lugar são fiéis a você? – perguntou Jacob desconfortável com a revelação de Erestor.
- Não entenda isso como fidelidade – respondeu ele – Trata-se de um fenômeno que nem mesmo eu consigo compreender; eu decidi escolher apenas algumas pessoas especiais para beber do sangue; escolhi as mais interessantes, as mais belas e as pessoas de melhor índole. Ao malfeitor, tempos atrás eu levei a morte, agora, às pessoas de coração puro eu dou a vida. Descobri que ao sugar um gole de sangue e injetar uma pequeníssima quantidade de veneno, as pessoas de quem me alimento se tornam mais fortes e imunes a doenças, se tornam mais vívidas, mais cálidas, mais belas e joviais... eu as abençôo e em troca elas são fieis a mim. Eu sou como uma droga para elas, o mais doce veneno do escorpião, elas são viciadas em mim e no que lhes posso proporcionar... eu lhes dou mais vida e elas me mantém vivo.
Erestor era um ser estranho, ele falava numa cadência lenta de séculos passados e suas palavras flutuavam no ar como um monólogo lento e dedicado, não desviava o olhar de nenhum de nós e, ao mesmo tempo, parecia estar entediado e preso em lembranças a muito tempo perdidas. Ele parecia realmente crer que criava um rebanho próprio, um harém de escolhidos que o amavam e o protegiam, que o alertava de qualquer mal ou de qualquer intruso.
Eu não aprovava este método, Erestor podia não matar as pessoas que habitavam este lugar, mas, ao mesmo tempo, desenvolveu uma espécie de encantamento que ligava as pessoas por ele atacadas como se fossem servos hipnotizados. Mas no momento em que pensei em repreendê-lo, no instante em que pensei em me levantar e dizer que ele não era diferente de nenhum dos Volturi eu percebi o olhar severo de Carlisle sobre mim.
E eu soube o que aquele olhar significava: silêncio! Erestor era um vampiro muito velho e sua mente funcionava de uma forma diferente da nossa, Carlisle tinha razão, não sabíamos ao certo como ele reagiria sendo reprimido por um vampiro tão jovem como eu, no mínimo se negaria a continuar esta conversa.
- Erestor... como conseguiu fugir de Volterra? – perguntou Carlisle seriamente colocando fim à nossa curiosidade sobre a vida cotidiana do vampiro.
Ele se recostou na poltrona confortável, olhou para nós demoradamente e suspirou alto, seus olhos perderam-se instantaneamente pela janela aberta e para o dia claro que raiava lá fora... seus pensamentos pareciam recuar até uma época distante e todas as lembranças lhe pareciam tristes.
- Eu havia me enfadado de permanecer em Volterra... após séculos naquele palacete, naquelas colinas verdejantes e daquela pompa de realeza e dos banquetes horrendos regados a sangue que os três irmãos promoviam... eu resolvi partir. Tentei convencer Francesco e vir comigo... eu implorei mas ele não queria deixar sua preciosa cidade. Francesco se perdeu por Volterra... enlouqueceu por ela... e no fim a sua amada cidade foi palco de sua morte.
- Resolvi partir para ver o que o mundo tinha de novo – continuou ele – Naquelas épocas longínquas as viagens não eram fáceis mesmo para um vampiro... as distâncias eram maiores e as pessoas menos amigáveis. Naquelas épocas os povos eram bárbaros e atrasados e viviam em guerras constantes... eu rumei para a Ásia e para o Oriente para rever o que restara de meu antigo mundo... fiquei vinte anos longe de Volterra...
- Vinte anos!? – espantou-se Seth e Erestor olhou-o incomodado pela interrupção.
- Meu caro menino – disse ele – Vinte anos para alguém que possui 4 mil não são nada, quando se vive demais os anos são indiferentes e sua contagem é tão desnecessária quanto enfadonha. Vinte anos quase não fizeram diferença, não cheguei a nem mesmo sentir falta de casa... mas como Francesco não retornava as minhas cartas eu decidi voltar à Itália.
- Meu horror foi imenso – continuou Erestor parecendo verdadeiramente desolado, eu quase podia ver as lembranças se formando em sua mente – Eu cheguei ao castelo e nas câmaras do subsolo haviam apenas três tronos ao invés de cinco... lembro-me do sorriso zombeteiro no olhar três irmãos. Caius, Aro e Marcus me olharam com divertimento e contaram rindo que haviam se cansado de seu pai, Francesco foi destruído por um novo servo que Marcus havia criado naquele meio tempo... um vampiro poderoso chamado Flávius Aurélius.
- O senhor dos Mercadores da Morte – suspirou Garret.
- Exato, mas naquela época ele ainda não comandava um exército tão grande... isso aconteceu tempos depois. Eu pensei que minha existência chegaria ao fim assim como aconteceu com Francesco... meu bom amigo; mas eu desconhecia a malícia dos três irmãos... eles evoluíram consideravelmente seu poder de dominação.
- As masmorras que eu e Francesco construíramos a séculos agora eram celas encantadas, as portas que as guardavam foram enfeitiçadas por um vampiro-feiticeiro que Caius minuciosamente escolhera para servi-lo. Lá eles me atiraram enquanto riam de mim chamando-me de velho caquético... e lá eu fiquei preso por tanto tempo que perdi a noção dos anos, numa masmorra escura e solitária.
- Como não morreu de sede? – perguntou Jasper.
- Nenhum vampiro morre de sede, meu jovem – respondeu Erestor em seu tom professoral – Você fica fraco e quase enlouquece, pede que o matem de tanta sede, perde a noção dos dias e da noite, da idade e de quem você é... a sede causa dor. Mas ela é incapaz de lhe matar... depois de anos, você acaba apenas ficando atirado num canto, destruído sobre sua própria miséria.
- Mas então... como? – perguntou Kaori impaciente.
- Depois de séculos e séculos... eu devo admitir que minha fuga das catacumbas de Volterra se deu por uma grande e inesperada sorte do destino. Eu já havia adormecido há muitos anos apesar de sempre ouvir pelos corredores enquanto os Volturi trancafiavam a seu bel prazer todos aqueles que os desafiavam... muitos vampiros foram presos e libertados depois de jurarem lealdade aos três irmãos, alguns levavam séculos mas a maioria cedia quando a sede apertava.
- Então é assim que os Volturi convencem seus servos? – perguntou Jacob mas sua voz saiu baixa como se pensasse para ele mesmo – Eles prendem as pessoas e as torturam através da fome até romperem sua força de vontade a adquirirem sua fidelidade. É isso que aguarda Bella, Nessie, Alice e Quil.
- Se elas se recusarem a servi-los... sim, é o que as espera – disse Erestor categórico – E acreditem, não há a menor chance de elas quebrarem os encantamentos que trancam as celas. Há vampiros nas masmorras... vampiros presos naquelas celas há milênios... presos desde a época em que eu fui trancafiado. Vampiros mais poderosos que suas filhas, Carlisle, então como podem imaginar... elas jamais poderão fugir por escolha própria. Terão de se aliar aos Volturi...
- Elas não irão... – rugiu Jacob – Renesmee jamais faria isso... ela jamais seria uma Volturi.
- Aro, Caius e Marcus possuem seus próprios métodos de persuasão – respondeu Erestor – Mas na minha época estes métodos não existiam e apenas as prisões surtiam efeito... ninguém jamais fugiu delas. A não ser eu... e apenas graças a Forge.
- Forge? – perguntou Seth imediatamente.
- Sim... Forge. Forge fora um dos inúmeros filhos de Volterra... fora criado por Caius há muitos e muitos anos, antes mesmo da morte de Francesco ele já havia sido transformado. Caius o transformou e o enviou através do mundo para descobrir alguns segredos que interessassem aos vampiros... ele partiu enquanto eu e Francesco ainda governávamos Volterra e só retornou 150 anos depois...
- Forge voltou diferente... andou pelos países da América central... África e os confins do Tibete e as vastidões infindáveis dos desertos da Austrália, quando chegou novamente a nós, sua transformação era assustador. Forge aprendeu as artes da magia... da magia negra e se tornou um mestre feiticeiro de imenso poder.
- Ah, qual é! – disse Jacob impaciente – Esse negócio de vampiros-feiticeiros nunca entrou na minha cabeça... para mim não passa de mito, como é que mágica entra nesta história? Agora um vampira macumbeiro me aparece na história e nós temos que acreditar nesta baboseira de catacumbas encantadas?
Eu vi quando Erestor silenciou, e seu olhar de censura foi o suficiente para calar até mesmo o poderoso Jacob Black, ele levantou-se lentamente para informar que não faria nada contra nós. Seu semblante era minimamente chateado, como se ele não suportasse a nossa ignorância e nossa impaciência. Como se nossa juventude gritasse contra sua antiguidade.
- Eu acho surpreendente – ele falou enfim enquanto mexia em uma gaveta tirando dela um longo charuto, em seguida voltou e sentou-se lentamente, acendeu o charuto tragando várias vezes, um cheiro doce de hortelã invadiu o ambiente – Já viajei por muitos lugares neste mundo, Jacob Black, já conheci cidades e florestas tão profundas que quase nenhuma criatura viva algum dia pisou... e neste mundo absurdamente grande, no meio de tantos lugares que você nem sonha... considera realmente que você e sua pequena tribo Quileute são os únicos transmorfos que existem?
- Do que está falando? – perguntou Seth com cuidado, seus olhos se estreitaram e nós sentimos o clima ficar tenso.
- Soube de tribos espalhadas pelo mundo... uma tribo africana onde os guerreiros transformam-se em velozes guepardos gigantes... uma nação esquimó isolada onde os mais fortes assumem a forma de imensos ursos polares. Enfim... nós estamos sentados aqui, crianças, e vocês estão diante de um vampiro de mais de 4 mil anos de idade, suas esposas e amigos foram raptados por um exército sanguinário... e você duvida que exista magia no mundo? Não, meu caro senhor Black... há muita magia no mundo e o senhor está rodeado por ela... existem encantamentos e existem vampiros-feiticeiros... quer o senhor creia neles... ou não.
- Perdoe a indiscrição de Jacob, Erestor – eu falei fuzilando Jake com o olhar, as duvidas dele não ajudariam em nada a nossa pressa – Continue contando a história de Forge.
Erestor tragou longamente seu charuto, a fumaça espiralava-se no ar até desvanecer sobre o brilho do sol da tarde, todos estávamos inquietos mas aos poucos fomos relaxando, enfim, percebemos que não deixaríamos a casa de Erestor naquele dia... aquele velho ancião tinha muita história para nos contar.
- Bem – disse ele – Forge habitava uma casa rústica fora dos muros da cidade, depois de alguns anos se apaixonou por uma humana e se casou com ela transformando-a em uma vampira logo em seguida, você já deve ter ouvido esta história antes – Erestor disse para mim com um sorriso zombeteiro nos lábios – Mas Forge não era um homem mal, nem mesmo um vampiro mal, entretanto, sua personalidade abstrata de um homem ligado às artes mágicas irritava Aro; Aro obrigou Forge a se manter afastado e ele só aparecia em Volterra quando solicitado para algum trabalho.
- Eu conversei raras vezes com Forge, mas ele parecia um homem alegre e inteligente, bem articulado e nutria uma interessante peculiaridade: apreciava muito os humanos apesar de jamais ter deixado de se alimentar deles – continuou Erestor – Para tanto que acabou cedendo aos pedidos de sua esposa e, por fim, “adotou” uma filha tornando-se assim... um vampiro de família. Pelo visto, há uma necessidade básica em alguns imortais em constituírem família... eu realmente acho isso muito perigoso.
- Como construir uma família poderia ser perigoso? – perguntou Kaori.
- Porque as famílias têm como base os laços do amor – respondeu Erestor tragando novamente seu charuto – E o amor é um sentimento extremamente perigoso aos imortais, no fim é um erro nos considerarmos humanos e é isso que os Volturi não compreendem; eu preservo os gostos pelos prazeres humanos e vocês comprovam isso no meu vinhedo e nesta bela casa, assim como vocês se mantém humanos na essência com sua família. Mas é um erro... os Volturi vivem como deuses e nós, no caso, como meros mortais.
- Não entendo porque o amor é perigoso aos imortais – teimou Kaori denunciando sua essência feminina que tende a defender o amor até o fim.
- Por que o amor, minha cara Kaori, ao contrário do que crêem os mortais, não é nem um pouco imortal – disse Erestor polidamente – É muito fácil para um ser que vive em média oitenta anos falar de amor eterno, mas para nós, que somos eternos... o amor tende a se desgastar com o tempo. Vocês ainda descobrirão isso...
- Eu jamais deixarei de amar Renesmee – rosnou Jacob uma vez mais.
- Mas e muito fácil afirmar isso, Jacob Black – riu Erestor – nenhum de vocês viveu muito tempo... na verdade, perto de mim não passam de sementes; mesmo Carlisle, que dentre vocês é o mais antigo, não passa de uma criança perto de mim. O amor é desgastado com o tempo, para um mortal é fácil falar de amor, há casamentos entre eles que duram 50, 60 anos... mas o que são cinco ou seis décadas diante dos milênios? O amor tende a se tornar monótono... pode até não desaparecer mas a atenção dos imortais desvia-se com o tempo e o amor se torna lento e passa a ser apenas idealizado ou realocado no coração de outra pessoa... no nosso caso, um mortal que acabaremos transformando em imortal para suprir nossa necessidade de afeto.
Eu parei por um instante infinitesimal, neste momento, tudo pareceu adormecer e acomodar-se silenciosamente nas linhas do tempo... eu podia observar os fótons de luz explodindo sobre os objetos iniciando as imagens que enxergava, sentia o vento deslocar sua massa de ar sobre as copas das árvores e percebi cada pequeno detalhe da expressão de cada um na sala.
Neste lapso de tempo ao qual eu era o único senhor de meus pensamentos, eu refleti sobre as afirmações de Erestor; sobre o amor não perdurar por toda a eternidade. Seria assim mesmo? Será que daqui a um ou dois mil anos eu deixaria de amar Bella? Neste instante pelo menos a idéia era completamente absurda... mas eu compreendia o ponto de vista de Erestor, do alto de seus 4 mil anos de idade qualquer relacionamento seria estranho se durasse tantos séculos.
- Mesmo os mais antigos não amam por muito tempo – disse Erestor me tirando de meus devaneios – Eu amei apenas Francesco nesta minha longa caminhada e agora amo uma menina que mora nesta cidade minúscula... os imortais amam lentamente e as vezes amamos apenas uma ou duas vezes. Mas o mais velho entre nós já tem 7 mil anos de idade e mesmo ele amou apenas três vezes... mesmo os Volturi podem amar, como sabem bem.
- Eles não amam ninguém – trovejou Jasper.
- Ah, mas é claro que amam – riu Erestor – Marcus nunca mais amou ninguém desde que Didyme desapareceu... assim como Caius é parceiro de Athenodora a séculos e nunca amou outra vampira.
- E Aro? – perguntou Kaori não evitando sua curiosidade.
- Aro amou uma menina antes de Sulpicia... uma linda e rica veneziana chamada Bianca. Ah, eu me lembro até hoje de Bianca... uma garota de olhos verdes como o mar, os cabelos dourados e longos e o rosto mais angelical que eu um dia já conheci... emoldurado numa inteligência incomum e em um gênio forte e temperamental. Era linda em todos os sentidos e Aro lutou muito pouco conta a vontade de transformá-la, naquela época eu ainda tentava ensiná-lo sobre os cuidados e responsabilidades em se transformar alguém.
- Mas, obviamente, Aro não me escutou e Bianca se tornou uma de nós. Por Amurru*, como ela ficou ainda mais terrivelmente bela com sua transformação, era uma das vampiras mais lindas que já avistei... se não a mais bela. Tornou-se extremamente imponente e o fato de todos a paparicarmos e darmos a ela uma vida de princesa, Bianca se tornou a companheira ideal de Aro... a não ser pelo detalhe dos tempos e após alguns séculos, Bianca deixou de amar Aro.
- Nossa.. . – impressionou-se Kaori – E o que aconteceu?
- Aro a confinou nas catacumbas mágicas de Volterra um pouco depois de eu mesmo ter sido aprisionado lá... Bianca foi a segunda prisioneira de Volterra e ela habita sua prisão até hoje.
- Meu Deus... – disse Kaori levando as mãos à boca – Que horror!
- Esse cara é um sádico psicótico – opinou Garret.
- Pobre criatura... – disse Kaori não se conformando.
- Sim... pobre Bianca – suspirou Erestor – Eu ainda a imagino lá, com toda a sua classe, sua finura e seus modos impecáveis, trancafiada há séculos num lugar escuro e sem vida.
- Realmente, Aro é um louco – eu disse com firmeza – Mas eu gostaria que voltássemos ao assunto, Erestor... você estava nos contado sobre a família de Forge.
- Sim, sim... me perdoe – disse Erestor se aprumando na poltrona – Como eu dizia antes de nosso desvio filosófico sobre o amor, Forge e sua esposa Salesiana conheceram uma pobre menina vinda de terras longínquas e acabaram transformando-a em uma imortal. Chamava-se Charlotte e era uma menina quieta e desconfiada apesar de possuir uma beleza estranha e exótica... era tratada como filha e Forge e Salesiana a amavam imensuravelmente, tanto que os dois ensinaram à menina os segredos da magia e ela completou o clã dos três vampiros feiticeiros que habitavam os arredores de Volterra.
- Ótimo – disse Jacob novamente impaciente – E o que estes três vampiros têm haver com a nossa história?
- Tudo – respondeu Erestor – Pois estes vampiros foram os confeccionadores dos feitiços que guardam Volterra... e são os únicos, tirando Aro, que conhecem os encantos e a forma de desativá-los.
- E eles ainda estão vivos? – perguntou Carlisle.
- Nem todos – e uma sombra de tristeza cobriu os olhos do velho vampiro – Nem todos... e a história deles se entrelaça à minha... pois foi justamente Forge quem me libertou da prisão eterna.
- Ele lhe libertou? – estranhou Garret.
- Sim... e essa é outra história que está envolvida a todos. Há quase um milênio atrás, quando eu já estava preso há muito nas catacumbas, eu ouvi, de minha cela, o rugido de destruição e luta. Algo que até então eu jamais ouvira, e o som dos gritos surgiu-me estranho enquanto quebrava o silêncio de minha solidão, era o ronco de uma guerra e eu fiquei surpreso por ouvir este som novamente quando achava que o mundo havia se tornado mais civilizado.
- Os gritos de horror, o canglor das espadas, choque de metal com metal, o som do vento uivando lá em cima tão alto que até eu pude ouvir... e as paredes tremiam e parecia que toda a fortaleza se desmancharia em pó. Esta luta ou guerra ou o que quer que fosse durou horas até que o brado de sua fúria começou a aumentar e aumentar e finalmente explodiu pelo corredor onde eu estava preso...
- Eu nada podia ver, apenas ouvir – disse Erestor e sua voz baixou até transformar-se num sussurro – Mas eu senti quando um grande poder passou por ali em meio a gritos de raiva, não sei o que era... nem sei quem era... mas parecia ter um poder absurdo... algo que eu jamais imaginava existir. Sei que os calabouços tremeram à sua passagem e sei que ouvi sua voz amaldiçoando os Volturi enquanto era empurrado para o fundo do corredor pela força de muitos vampiros e pela voz estridente de Flávius Aurélius.
- E o som continuou por mais um tempo até que o silêncio modorrento recaiu novamente sobre as catacumbas... eu senti quando os três irmãos Volturi desceram da destruição da superfície e atravessaram o corredor atrás da luta que havia findado. Passaram-se horas e horas e eu não sabia o que estava acontecendo... queria gritar para que me contassem mas eu não podia... ninguém me ouviria... só que então veio a surpresa e a sorte que me libertou.
- Eu estava esperando o próximo movimento, o próximo acontecimento quando, inesperadamente, a porta de minha cela brilhou intensamente e abriu-se num estalo e num escancarar lento e cheio de rangidos. E da porta e da fraca luminosidade dos archotes do corredor, um vampiro surgiu caindo logo em seguida e se atirando em meus braços, eu o segurei instintivamente e quando a luz amarela tocou seu rosto eu vi que era Forge. Estava horrivelmente ferido, praticamente morto e sua garganta cortada quase inviabilizava sua fala, estava despedaçado em todos os sentidos... seu corpo já estava praticamente destruído... ainda assim... ele falou comigo.
“Erestor” – disse-me ele à beira da morte com uma dificuldade agonizante – “Ele me traiu... Aro me traiu... e agora vai dominar tudo... você precisa avisar minha esposa e minha filha para fugirem. Aro não quer arriscar que mais ninguém saiba os segredos das prisões... Salesiana e Charlotte sabem e por isso elas correm perigo... vá... fuja... eu estou condenado, mas você pode salvá-las... você pode impedir que Aro as mate... por favor, Erestor... faça isso e em troca eu lhe dou a sua liberdade”.
“Mas Forge” – eu perguntei a ele enquanto a aflição me tomava – “O que aconteceu... que batalha foi essa? E quem está preso aqui? Quem é tão importante assim a ponto de Aro não querer dividir este segredo?
“Aquele que não deve ser libertado” – ele disse agonizando – “Agora vá... Erestor.. e salve sua vida e a de minha família”.
E então eu fugi.
- Mas... começou Seth – como você passou por todo mundo?
- Porque estavam todos mortos – disse Erestor tranqüilamente – Na superfície haviam centenas de vampiros mortos e incendiados; o pátio estava semi destruído e tudo era um caos. As pessoas que habitavam ali na cidade haviam fugido... eu nunca presenciara tamanha destruição mesmo nos dias antigos onde Volterra fora constantemente atacada.
- Mas o que aconteceu afinal? – quis saber Garret.
- Eu não sei. Afinal, eu estava preso há muito tempo... as datas não me são muito certas e eu apenas ouvi o rumor da batalha... ninguém sabia o que havia acontecido... nem mesmo Salesiana e Charlotte. Elas não tinham consciência sobre o trabalho que Forge fora fazer e quando eu cheguei com as notícias elas ficaram arrasadas depois de confirmarem que eu dizia a verdade; mas não se demoraram um segundo a mais depois de meu aviso, elas partiram no mesmo instante que eu. E é aqui, senhores, que eu termino as minhas histórias...
- Ou seja... viemos até aqui apenas para não obter qualquer resposta positiva... – completou Seth azedo.
- Ora... mas eu acabei de revelar a única saída que lhes resta... – disse Erestor surpreso – Ou será que vocês não prestaram atenção a nada do que eu disse?
- Então, basicamente, pelo que compreendi – disse Carlisle se manifestando, ele estava sentado com as pernas cruzadas e as mãos trançadas apoiadas no queixo, seu ar contemplativo revelava seu entendimento da coisa toda – Se houver a possibilidade de que Bella, Alice, Nessie e Quil estejam presos nas masmorras de Volterra, cujas quais são trancadas por encantamento... nós precisamos dos conhecimentos de Salesiana e sua filha para podermos libertá-las?
- Exato – confirmou Erestor.
- Ah, eu não acredito! – disse Jacob decepcionado – Nós viemos até aqui para encontrar este vampiro e agora ele nos diz que ainda temos que correr atrás de duas bruxas?
- Vocês não têm escolha, Jacob Black. Além de Aro Volturi, apenas Salesiana e Charlotte conhecem o segredo dos encantamentos das celas de Volterra... sem elas vocês poderão até invadir o palácio mas jamais conseguirão libertá-las caso Aro tenha as aprisionado lá. Nenhuma força no mundo é capaz de mover aquelas portas a não serem as palavras que desfazem os encantamos.
- E estas duas bruxas ainda estão vivas? – perguntou Jasper.
- Sim... elas se esconderam de todos para que os Volturi não as encontrassem.
- E você sabe onde elas estão? – eu perguntei cada vez mais aflito.
- Não ao certo... possuo apenas uma idéia... não seu paradeiro exato – respondeu Erestor pensativo – Viajamos apenas meio dia juntos, e elas confidenciaram o local para onde fugiriam e para onde estariam seguras dos Volturi: o extremo norte da Escócia.
- Escócia!!?? – gritou Seth – Não tinha um lugar um pouco mais longe?
- Eu não acredito nisso... – suspirou Jasper – Mais uma viagem...
- Em que lugar exato na Escócia... Erestor? – perguntei temendo que ele não soubesse.
- O que vou lhes dizer agora, tratem com suspeitas, pois considero boato – ele respondeu muito mais sério que o normal – Tudo o que sei é de um lugar que ouvi apenas através do sussurro das duas e de informações que viajantes desgarrados me trazem, mas tudo indica que ao norte extremo da Escócia, passando as pradarias quase infinitas das highlands, muito além das montanhas que lhe barram o caminho, há uma pequena vila costeira chamada Wick. Há uns 200 quilômetros a oeste rumando para o interior do país existe um lugar desolado de onde a população local não se aproxima pois reza as lendas antigas que é o lugar de repouso de duas bruxas poderosíssimas... este lugar é chamado de Pântano da Desolação.
- Gente... que coisa absurda – riu Seth mais uma vez – Pântano da Desolação? Caraca, não tinha um nomezinho mais horripilante não? E é engraçado como este povo só se esconde em lugares legais, não é? Tipo, um vulcão... um pântano... vocês nunca pensaram em se esconder no Caribe ou na Flórida?
- Meu Deus – riu Garret também – Acho que Emett reencarnou em Seth.
- Pensei a mesma coisa – concluiu Carlisle olhando de soslaio para Seth.
- Você me mata de vergonha – assoprou Jacob desamparado.
- Pessoal... – eu interpus – Foco. Erestor, você nem ao menos tem certeza?
- Não – ele respondeu lacônico – Entendam, já faz quase mil anos que isso aconteceu... e eu nem ao menos posso afirmar que elas ainda estão lá, ou que realmente se esconderam neste local. Tudo o que sei é que são as duas únicas vampiras, além de Aro, que conhecem os segredos dos encantamentos criados por Forge e sem elas... não haverá esperanças de entrar em Volterra.
- Mas se os rumores chegaram até você, como os Volturi nunca tentaram localizá-las, porque provavelmente esses rumores também foram ouvidos em Volterra.
- Porque se trata de duas feiticeiras, Edward. Vejam bem, dizem que há um encantamento que impede que os inimigos as encontrem... e é um encantamento muito bem elaborado: apenas aqueles que desejam encontrá-las, encontrá-las sem lhes fazer mal, poderão descobrir o local exato onde Salesiana e Charlotte moram.
- Mais essa ainda... – resmungou Seth.
- E essa nem é a parte mais difícil... – continuou Erestor – Francamente, mesmo que por uma sorte absurda, vocês encontrem as duas... não há força na terra que as faça auxiliá-los... as duas tem verdadeiro pavor dos irmãos Volturi e da cidade de Volterra. Eu não as culpo, afinal, Aro quer a cabeça das duas.
- O que você acha? – eu perguntei para Jasper que era o nosso estrategista.
- Estamos ferrados – ele respondeu simplesmente.
Quando deixamos a casa de Erestor o sol já se punha e as sombras esguias lançavam seus dedos frívolos sobre o mundo... o velho vampiro nos acompanhou até os limites de sua terra, no exato caminho pelo qual chegamos. Nos fez provar suas uvas que eram doces e suculentas... Seth e Jacob sempre se espantam quando ingerimos algum alimento humano, vampiros fazem isso o tempo todo, mas não em grandes quantidades.
Seth, incrivelmente, ainda ganhou uma garrafa de um vinho tinto finíssimo da safra Erestor... o velho olhou-o rindo e disse algo como “tome garoto, acho que você anda precisando ficar bêbado um pouco”.
Em seguida nos despedimos do velho Erestor, ele nos olhou demoradamente estudando cada um de nossos rostos e percebeu o medo que guardávamos, percebeu minha falta de esperança e minhas forças minguantes. Acabou sorrindo um sorriso meigo e preocupado e eu descobri que no fim das contas gostava de Erestor... era um homem milenar de modos refinados e que guardava o gosto pelas coisas boas da vida... um vampiro que queria apenas a paz e que apesar de se alimentar de humanos... não os matava.
- Adeus, então, meus amigos... eu lhes desejo a maior sorte do mundo... e que vocês encontrem o que procuram – disse ele enquanto nos afastávamos e havia um traço de tristeza em seu rosto jovem e ao mesmo tempo antigo – Se vocês sobreviverem me avisem... eu adoraria conhecer toda a sua família, que é tão especial a ponto de vocês aceitarem morrer por ela.
- Adeus, Erestor – gritou Carlisle – Fique em paz.
- Carlisle – gritou Erestor uma vez mais e o timbre de sua voz nos fez virar novamente para encará-lo – Lembre-se, cuidado com as portas que você abre em Volterra... naquelas catacumbas habita um mal inominável... naquelas celas um poder gigantesco foi celado... tome muito cuidado. Não se dirija até a última profundidade das catacumbas, pois foi lá que este mal foi aprisionado... é lá que habita Aquele que não deve ser libertado.
E com o aviso de Erestor ecoando em nossas mentes, a noite encobriu-nos a todos... rumávamos a toda velocidade para o aeroporto mais próximo de onde alçaríamos vôo rumo à Escócia e seus campos eternos e gelados. Eu olhei para meus companheiros e via a desesperança em seus olhos cansados... esta jornada nos pregara mais uma peça, viemos atrás de Erestor apenas para descobrir que ainda tínhamos um longo caminho pela frente.
Eu sentia Bella e Renesmee ainda mais distantes de mim.
E agora eu corria para o fim do mundo... em busca das bruxas Salesiana e Charlotte...
Nem ousando imaginar o que faríamos se elas se recusassem a nos ajudar.










1 comentários:
Nossa!!! Como eu sempre digo a você,você é um ótimo escritor.
E eu me sinto privilegiada por sempre ler algo que você escreve,pois o encantamento que tenho e sinto a cada capitulo que você escreve é simplesmente fascinante.
E mais essa jornada de nossos amigos,será que eles vencerão mais essa?
Meu querido estou fascinada com tudo,pois você é brilhante e a hitória se encaminha para uma fase inacreditavel.
estava tudo absolutamente PERFEITO.
vc esta de parabens
beijusss e até o proximo cap:
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