Eu fui obrigada a admitir que olhando Matheu trajando uma armadura resplandecente, ali ao lado daquelas obras de arte, falando de uma época antiga... era impossível não admirá-lo. Um vampiro tão educado, forte e sábio... despertava uma certa inveja.
- Eu invejo a sua chance de tê-los conhecido – eu disse verbalizando o meu pensamento.
- Foram épocas memoráveis... mais tranqüilas eu diria.
- Por quê?
- Não havia tanta confusão e o mundo era mais simples – disse Matheu – Os homens eram menos complicados, menos tolos e nós imortais podíamos vagar com mais liberdade este imenso mundo.
- Matheu... por que você serve aos Volturi? – eu perguntei sem poder resistir, Matheu não parecia com os outros Volturi que andavam sorrateiros pelo castelo.
- Originalmente, eu fui um Mercador da Morte – ele falou e logo notou minha expressão de susto – Fui criado por Flávius Aurélius pouco depois dele mesmo ter sido transformado em imortal; mas com o tempo, mestre Aro decidiu que eu poderia servir melhor como guarda pessoal do palácio do que com um exército de vampiros.
- Por que ele escolheu você?
- Não sei – disse Matheu e havia sinceridade em seus olhos – Capricho talvez, ou simplesmente precisava de mais guardas, enfim, aqui estou eu a servir como guarda-cavaleiro de um palácio de vampiros. Nunca tive a ambição de conhecer outro senhor ou ser senhor de mim mesmo, os Volturi têm um motivo de ser, de existirem, a causa deles é nobre.
- Como destruir famílias inteiras? – eu perguntei chateada.
- Infelizmente sim.
- Bom para eu lembrar que há maldade por trás de toda esta beleza – respondi bruscamente e dei as costas para Matheu, segui para longe da bela fonte através do caminho verde que me levaria até onde Quil era mantido prisioneiro.
Durante o resto do caminho eu tentei não ser influenciada pela beleza exuberante dos jardins de Volterra, Matheu não me dirigiu palavra e isso me irritava ainda mais, pois mostrava que ele respeitava os meus sentimentos e isto era horrível vindo de um Volturi.
Finalmente, depois de um longo trecho, cheguei à entrada de uma pequena vala que separava o jardim de um lado mais amplo da grande muralha, ali se viam várias janelas com grades grossas e pesadas; era onde ficavam as prisões que simulavam aposentos, eu não gostava de ver Quil ali, mas era melhor do que as temidas catacumbas subterrâneas.
Matheu não me acompanhou enquanto eu cruzava a passarela até o outro lado, a vala não era profunda apesar de estar cheia de uma água escura e estagnada, não servia para isolar os prisioneiros, apenas para informar que aquela área era restrita. Do outro lado um guarda baixo me cumprimentou educadamente quando me viu e permitiu minha passagem até o lado mais distante do muro; ali estava um grande portão quadrado e a cela de Quil.
A cela era grande como uma gruta onde uma cama e um guarda-roupas flutuavam no espaço ocioso do lugar, era iluminado apesar de tudo e um banheiro simples estava acomodado no fundo do quarto, a porta aberta mostrando que as pedras escuras e brutas estavam em todos os lugares dando ao ambiente um estranho ar de isolamento.
Quil estava deitado na cama olhando através da grade que se abria na parede como uma pequena janela, o céu azul o encarava com escárnio se gabando de sua insuperável liberdade.
- Ei você – eu chamei sem jeito – Não tem nem Tv por aqui?
Ele se levantou lentamente e me encarou, um sorriso sincero brotou de seus lábios apesar de que seu abatimento era visível; Quil se ergueu da cama estalante e gingou seu corpo imenso de Quileute em minha direção, passou os braços quentes através da grade e segurou minhas mãos.
- Legal, vamos ter um baile a fantasias? – ele disse sorrindo esquadrinhando o meu uniforme Volturi, eu apenas retribui com um sorriso triste – Como estão as coisas no castelo?
- Acredite, eu preferiria mil vezes ficar presa numa caverna como esta.
- É, neste ponto eu levei sorte... como estão Bella e Renesmee?
- Estão bem, na medida do possível é claro – eu respondi – Bella preocupada com Nessie, Nessie desesperada quando retoma a consciência longe do domínio de Chelsea... enfim, o de sempre. E você, eles têm te incomodado muito?
- Um pouco, sempre vêm aqui me oferecer pra ser um guarda Volturi, imagine só, se eu quisesse já teria arrebentado estas grades idiotas e fugido daqui, só não faço isso por vocês três.
- No fim das contas Quil, eu penso se não seria melhor nós ficarmos um pouco mais... dóceis – eu disse lançando-lhe um olhar cheio de significados, pedindo aos céus que Quil compreende-se o que eu tentava lhe dizer, diferente da cabeçuda da Bella que não pegava nada.
- Você quer dizer... – Quil balbuciou tentando entender.
- É complicado – eu respondi batendo de leve na minha cabeça e meus ouvidos para que Quil compreendesse que meus pensamentos e palavras eram vigiados – Mas acho que talvez nós não devêssemos ter tantas esperanças, estamos a milhares de quilômetros de casa, nossas famílias e amigos foram mortos... seria mais prudente avaliarmos a nossa situação atual. Afinal, o mais importante é ficarmos juntos...
Quil me encarou e eu sustentei seu olhar deixando as últimas palavras soarem um pouco mais forte, eu queria que ele compreendesse que deveríamos fazer o jogo dos Volturi para não ficarmos separados como estávamos. Quil era um rapaz inteligente e pelo modo como eu o encarei ele notou que eu tentava dizer algo, virou levemente a cabeça para olhar além de mim e notou os dois guardas a postos, depois voltou a me encarar e aquiesceu levemente num sinal de entendimento.
- Você acha que é seguro? – perguntou ele apertando minhas mãos com um pouco maias de força e eu sabia que ele havia compreendido o plano e estava se referindo a isso, fiquei feliz em saber que Quil teve consciência que deveríamos manter uma conversa num tom dualista.
- Claro que não! – respondi gravemente – Mas você vê alternativa? Escute a proposta deles da próxima vez, tudo o que queremos é nosso amigo perto de nós, eu não suporto vê-lo preso aqui e com você por perto nos sentiríamos mais... seguras.
- Há algum futuro nisso tudo?
- Eu não sei ao certo – eu respondi sabendo que Quil se referia ao fato de haver um plano ou não – Mas acho que poderá haver respostas com o decorrer do tempo, talvez outras portas se abram para nós.
- Eu estou entendo, está bem... vamos ver onde isso tudo nos levará.
- Ótimo, venho te visitar novamente na semana que vem – eu respondi com um sorriso minguante, Quil retribuiu e se afastou da grade permitindo que eu me afastasse; minhas mãos aquecidas do contato com a pele fulgurante dos quileutes.
Fiquei satisfeita que Quil entendeu o que eu disse a ele, a nossa conversa de duplo sentido vai esconder a verdade de Aro, além do mais, os Volturi ficarão felizes que Quil os reconheça como senhores. O plano estava caminhando, os Volturi pensariam que estávamos nos associando a eles e, durante este momento de confiança, encontraríamos um jeito de fugir... sem Demetri para nos rastrear, teríamos chances de nunca mais sermos encontradas novamente.
Eu passei pelo guarda que se colocou a postos assim que me viu, atravessei a passarela para encontrar um Matheu fielmente me aguardando do outro lado, na entrada para os jardins; por algum motivo que eu desconhecia, a visão dele me irritou instantaneamente.
Segui rápido atravessando o jardim procurando não permitir que a beleza do lugar me seduzisse, entretanto, alguma coisa me irritava a cada passo dado; Matheu me irritava. Eu gostava dele, sempre fora educado comigo, Bella e Nessie e até mesmo com Quil ele demonstrou respeito, eu não o considerava um idiota como os outros Volturi... mas ele me revelou que nasceu Mercador da Morte e serve aos Volturi por livre vontade, isso me deixou extremamente irritada: o fato de Matheu me lembrar que é um Volturi.
Seu silêncio me acompanhava e eu não agüentei mais, me virei para encará-lo e ele me olhou surpreso com meu comportamento brusco.
- Como você pode defendê-los? – eu disse meio que gritando – Eu sou prisioneira aqui e detesto o fato de ter tido a minha família destruída pelos vampiros que você segue com tanta fidelidade.
Matheu, que estava alguns passos distante de mim, se aproximou de repente. Aproximou-se mais do que havia se aproximado até hoje e me olhou com tanta intensidade que eu fiquei levemente incomodada; sua armadura brilhante resplandecendo como nossas peles ao sol, eu desviei o olhar e por algum motivo tive vontade de me afastar dele... mas não o fiz.
- Alice – disse ele usando pela primeira vez o meu nome – Nós pertencemos a mundos diferentes, eu sempre vivi aqui e você não; entendo o quão difícil deve ser para você compreender os motivos através dos quais os Volturi existem ou fazem o que deve ser feito. Não é uma vida privilegiada, mas entenda, alguém deve fazer o trabalho sujo. Eu sinto muito por sua família, sinto mesmo, mas fico feliz que você esteja aqui.
- Eu não me sinto feliz, só de pensar que me tornarei uma das várias serviçais dos três reis...
- Alice – disse Matheu me interrompendo – Você acredita mesmo que seria uma serviçal como Chelsea ou Jane? Está enganada, você e sua irmã pertencerão à corte, serão princesas de Volterra...
- Eu não quero ser uma princesa, Matheu.
- E há alguma chance de ser outra coisa?
- Sim, ser uma vampira normal no meio de uma família normal.
- Você acabará se acostumando...
- Você acha isso mesmo? – eu disse mais magoada que irritada, a proximidade de Matheu me deixando confusa – De que serviria ser uma princesa em Volterra se o meu coração está distante daqui?
- Eu também não gosto da idéia de que você seja uma princesa, Alice – ele falou muito sério, seus olhos vermelhos me hipnotizando – Porque um guarda-cavaleiro jamais teria permissão de possuir o coração de uma princesa, mesmo que este coração estivesse distante daqui.
- Eu... eu... acho que é melhor nós irmos andando... Matheu – eu disse quase perdendo a fala, estava literalmente desacostumadas a levar cantadas.
- Como queira, senhora Cullen – respondeu Matheu assumindo imediatamente sua postura de guarda.
O caminho de volta para o meu quarto foi ainda mais estranho e silencioso, pensei em subir falar com Bella, mas decidi que não iria, afinal, não poderia contar-lhe que Quil estaria no plano junto conosco. Além do mais, as palavras de Matheu não deixavam minha mente, então era verdade, ele gostava de mim; era algo perturbador saber que um Volturi me desejava... só agora compreendi o que Bella estava sentindo.
Ainda assim, apesar de tudo, a presença de Matheu me perturbava, o som lamurioso do violino de Alec me deprimia ainda mais e no momento em que chegamos ao corredor de meu quarto, Matheu adiantou-se e abriu a porta para mim.
- Tenha uma boa noite, senhora Cullen.
- Boa noite, Matheu – eu disse, mas então, subitamente, antes que Matheu fechasse a porta, eu me virei para ele – Sabe, mesmo que eu fosse uma princesa, eu preferiria mil vezes entregar meu coração a um guarda do que a um rei.
E dito isso me virei, não antes de captar um sorriso radiante no rosto de Matheu, com a porta fechada eu me sentei na cama sob o caprichoso teto pintado pela genialidade de Botticelli; ali, sozinha, um sorriso estranho brotou nos meus lábios, desaparecendo um segundo depois.
Aquilo fora um flerte?
Meu Deus! Há algumas semanas atrás eu me separei de Jasper sem saber se ele havia sobrevivido e agora aqui estou eu flertando com um Volturi? Não, que bobagem, aquilo fora parte do plano, afinal, tínhamos que conquistar a confiança dos vampiros de Volterra, nem que isso significasse começar pelos guardas.
Mas era isso mesmo? Ou estaria eu apenas mentindo para mim mesma? A solidão, a mágoa, a tristeza e a carência estavam me afetando deste jeito? Será que seríamos pegas em nossas próprias mentiras?
Eu fiquei com raiva de tudo, e me sentindo suja me despi imediatamente daquelas roupas negras atirando-as para o outro lado do quarto, enrolei minha nudez na colcha macia e fina da cama e me deixei ficar ali observando o céu azul que iluminava uma tarde perfeita.
Onde estaria Jasper?
Meu destino, no fim, seria este? Uma princesa de uma cidade de vampiros?
Princesa Alice de Volterra... por essa eu não esperava.










2 comentários:
esta emocionate, intrigante...parabéns.....
Nossa Angus até eu estou perdida se a Alice estava flertando de verdade ou se fazia parte do plano...
Capitulo perfeito como sempre querido!!!!
Beijusss
Postar um comentário
Não esqueça de comentar, isso incentiva os escritores e também a mim que tento agradar a vocês.