31 de out de 2011

Capitulo 23

Posted by sandry costa On 10/31/2011 No comments



P.O.V – Hellena



Encarávamos o corpo que já estava cinzento.

-Ela morreu a algumas horas. – murmurei com um lenço no nariz para tirar aquele cheiro de cadáver de mim. – Só notou esse cheiro agora? – perguntei certamente irritada.

-A porta é de cedro, essa madeira confunde meu olfato. – falou vagamente tirando os olhos do cadáver para algo próximo a janela.

Beatriza estava com o corpo cheio de rachaduras e estava em um tom de azul acinzentado. Uma estaca pingava algo avermelhado, e estava bem enterrada em seu peito, empalando-a a cama.

Seu rosto estava transfigurado, os lábios entreabertos e os olhos revirados nas pálpebras, de um jeito que só via a parte branca, ou talvez houvesse uma camada opaca e branca na pupila, não sei bem.

Andei um pouco pelo quarto parando perto da janela. Estava aberta e o vento fazia a cortina de seda lavanda flutuar para frente e para trás. Olhei a tranca mais de perto.

-Foi aberta por dentro. – engoli em seco fazendo minha garganta estalar de uma forma estranha.

-Alguém a enfeitiçou a abrir.

Agachei-me a batente pegando uma pena de águia colorida. Tinha uns tons de azul claro e penas sarapintadas de pontas pretas. Era uma pena muito bela e longa.

-Alguém que vira uma águia pesqueira. – peguei a pena levantando ate a altura de meus olhos, analisando melhor cada nuance de cor. Suspirei largando-a. – Foi uma súcubo, com certeza.

-O que faremos agora? – ele se virou para mim.

-Enterramos ela, nos livramos desse corpo. E não a mais nada a fazer. – falei friamente. Eu sabia quando tinha que ser cruel, quando era preciso, não podia fraquejar.

Como estava cedo e limpo de humanos na rua, levamos o corpo ate o parque e colocamos fogo nele. Em instantes ela se carbonizou virando um amontoado de cinzas.

Passei minha mão por meu cabelo de uma maneira nervosa.

Comuniquei às meninas que a vampira tinha sido morta, a queima-roupa, por uma súcubo que tem odol. E que elas ainda deviam estar por perto, ou não. Quando se trata de uma súcubo, ela pode estar na Itália uma hora e no Tibete outra.

-O jeito mais fácil e discreto de matar alguém é usando odol. Mas aonde elas vêm conseguindo tanto? Ele fica trancado no cofre da terra e poucas sabem a receita. – Blake falava incrédula.

-Muitas corrompidas, ou então, uma da terra. – eu disse sem emoção remexendo no fio que saia do pano de mesa. Só de pensar na possibilidade de alguma amiga minha ser a culpada, já me deixava tensa.

-Esta ficando cada vez mais perigoso. E cada minuto que passa mais coisas entram em jogo. – Quenn disse com a voz suave. – Temos que escolher bem em que confiaremos agora.

E ela tinha total razão.



Do mesmo jeito que novidades tenebrosas chegaram, elas sumiram, o bom de a guerra ser entre imortais, é que ela é lenta como nenhuma outra, demoramos demais a atirar a primeira flecha, e isso me deixava mais tranqüila.

Eu e Alec não nos encontramos muito mais depois da morte de Beatriza, nossas relações estavam restritas ao telefone, e ele voltou para Volterra, prometeu não contar sobre nossas conversas, mas era um sacrifício para ele. Eu estava fazendo-o omitir informações de seu próprio povo.

Andar comigo dava bastante delas.

Falei que era melhor darmos um tempo ate a poeira baixar e eu parar de dar informações de guerra para ele. E assim mais duas semanas passaram.

Em pouco tempo já tínhamos esquecido de Beatriza, de súcubos e da guerra. Alec voltou e parecia mais aliviado com algo que eu não sabia bem distinguir o que.

Andávamos juntos na praça de mãos dados enquanto o vento passava por nos como uma caricia delicada. O ar da noite era distinto e mais agradável do que o normal.

O silencio como sempre reinava entre nos como uma fina camada de gelo, que com um mover de mãos, se quebraria, mas nos curtíamos suavemente aquele silêncio, aquele momento de paz etérea.

-Sabe, eu não consigo imaginar você como Volturi. – Alec disse.

-Como assim? – franzi as sobrancelhas.

-Você é livre demais, alegre demais para ficar trancada em um castelo obedecendo ordens. Você dá ordens, faz parte de quem você é. A grande líder. – caçoou.

-Aham... – revirei os olhos.

-È sério. – ele sorriu.

-É... Eu não me imagino fazendo o que você faz mesmo. Assistindo filmes péssimos apenas para ficar por dentro do que os humanos sabem sobre nos... Não. – movi a cabeça em negativa.

Alec riu.

-Lembra do nosso primeiro natal? – falou bem humorado.

-Foi um desastre. – franzi meus lábios.

-Mas foi bom no inicio. – falou ultrajado.

Seus dedos estavam entrelaçados as meus quando erguemos as mãos deixando a luz refletir nos anéis preciosos.

-E você adorou o presente. – disse convencido.

-E você o seu! – dei um empurrão nele.

Saímos rolando juntos na grama, meus cabelos enroscando nas folhas que estavam no chão. Quando paramos, eu estava por cima. Estiquei meus lábios e beijei seu pescoço.

-Meu! Eternamente meu. – sorri.

Rolei para o lado ficando deitado com ele, admirando o céu que de tão escuro, fazia meus olhos doerem.

Alec cantarolava uma música em italiano sem mover os lábios, e por um momento eu parei para ouvir o repicar hipnotizante de sua voz. Mas depois de um tempo ele parou e virou o rosto para mim.

Suspirei repetindo seus gestos.

-Tudo vai ficar bem no final Hellena. Eu prometo.

-Não prometa o que não pode cumprir. Isso está além de seu alcance.

-Tenho certeza que terminara bem.

-De que temos certeza nesse mundo Alec? – murmurei.

-De que o dia se amanha sempre vira.

-Não me importo que ele venha, dês de que tenha com quem compartilhar as estrelas. – encarei a imensidão aveludada do céu. Ele estava salpicado de prata, por belas estrelas.

-Dizem que o céu da Itália é o mais belo que existe.

-Dizem a verdade. – aconcheguei a cabeça em seu peito quando ele começou a citar o nome de cada constelação.

E ali, nos braços dele, me senti segura como não me sentia há muito tempo, apesar de saber, que a um simples gesto de mãos, a segurança ia embora, mas eu não ligava, eu tinha com quem compartilhar as estrelas, e isso bastava.

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