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3 de jul. de 2011

Capitulo 25

Posted by sandry costa On 7/03/2011


Traição



O sol aqueceu minha face e meus pensamentos não vieram a tona imediatamente, eu sentia meu corpo subir e descer como se estivesse flutuando sobre as nuvens do céu, uma quietude excessiva tomava meu ser me embalando numa canção lenta e repetitiva que lembrava as ondas do mar. Mas então a tristeza me despertou completamente, a dor da revelação me recebeu como um murro no estômago... eu era uma Fúria da Noite... uma Feiticeira Negra.

- Você demorou a acordar... eu já estava preocupado – disse uma voz conhecida atrás de mim e, ao me virar, eu vi o velho barqueiro me encarando de seu posto na popa da pequena embarcação.

- O que estou fazendo aqui? Onde está Marcela? – perguntei confusa.

- Quando você perdeu os sentidos, Marcela me pediu para trazê-la novamente para o continente – disse Gilliat com o olhar triste.

- Eu fui expulsa da ilha de Marcela...

- Expulsa não, minha criança... sua presença estava causando uma desarmonia em toda a ilha e Marcela foi obrigada a tirá-la de lá. Infelizmente, ela não pode lhe ajudar, a não ser revelando quem de fato você é.

- Sou uma Feiticeira das Trevas... – eu suspirei escondendo o rosto entre as mãos.

- Você será se assim desejar – respondeu Gilliat não interrompendo suas remadas ritimicas e precisas.

- Mas como posso ser algo diferente do que nasci para ser? Todos mentiram para mim, meus pais mentiram... minha mestra mentiu, pelos céus estrelados, minha vida foi uma farsa até hoje.

- Tudo o que você sentiu foi real, Sophia... mesmo que as pessoas tenham lhe enganado, o que você sentiu foi real porque partiu da pureza de seu coração. Entenda, as pessoas não nascem com o mal inato em seus corações, tornam-se más por escolha própria... é certo que cada ser humano tem um dom, se um homem nasce para ser carpinteiro... assim será. E há aqueles que nascem para o mal, possuem, muitas vezes, um coração bom propenso a fazer coisas ruins, um coração ambíguo... mas o que difere homens bons dos homens ruins é a capacidade de extirpar este mal, de se sobrepor a ele mesmo sabendo que a maldade germina em seu coração. Você não é diferente, não é porque está destinada às sombras... que precisa fazer parte delas.

- Eu me sinto perdida, Gilliat... não sei para onde ir... – eu disse arrasada.

- Siga seu coração, minha criança – respondeu o velho revertendo a pá do remo e me indicando com os olhos a praia de onde viera me buscar – Agora vá, Sophia Luzdaurora... você nasceu destinada a grandes feitos, se bons ou ruins eu não sei dizer... mas com certeza serão grandes. Vá criança... entre nas ondas e volte a correr atrás de seu destino.



Eu encarei as águas revoltas sob o barco, a espuma branca do mar gritando em torvelinhos de ondas que quebravam lá na praia, por um instante eu hesitei... não queria deixar o barco e a serenidade de Gilliat, ali parecia tão seguro, tão tranqüilo, como se eu pudesse permanecer eternamente adormecida flutuando neste mar infinito.

Mas eu sabia que não podia ficar e, desta maneira, saltei pela amurada da embarcação e senti a água salgada do mar me envolver em seu abraço gelado e etéreo, assim que meu corpo foi tomado pelas ondas eu ouvi a voz do Oceano sussurrando em minha mente, inebriando meus sentidos com seu canto de poder absoluto... então era esta a minha maldição? As forças elementais da natureza mostravam a mim seu lado mais obscuro? Eu não era capaz de criar e alterar as forças da mãe terra... eu tinha o poder de deturpá-las e ampliar sua força destrutiva.. eu era uma agente do Caos.

Então eu me livrei da voz dominante do oceano com suas promessas de poder supremo e mergulhei através das ondas até a praia; meu coração se encolhia à medida que eu me aproximava da areia, como haveria de contar para Lizii que eu era uma Feiticeira das Trevas? Como encararia Ethan que fora amaldiçoado por essa raça de feiticeiras? Eu perderia minha amiga... e o homem que aos poucos eu entregava o meu coração.



Mas quando finalmente coloquei os pés na areia da praia, quando endireitei meu corpo e meus olhos pararam de arder devido ao sal da água... eu notei. Foi muito sutil, como a brisa de uma tarde de inverno, havia algo errado... algo alterado, de alguma forma o lugar não estava normal... Gilliat me deixou próximo de onde Lizii e Ethan estavam acampados... mas, por alguma razão, tudo estava estranhamente diferente de quando eu parti.

Descalça, dei alguns passos desconfiados rumo à mata nativa que se abria logo depois da praia, havia uma sombra estranha lá dentro no meio das árvores e folhagens, estava tudo silencioso e estático, como se o mundo aguardasse alguma coisa... eu preparei minha concentração... preparei minha aura de magia... as palavras e encantamentos prontas a disparar de minha língua se fosse preciso... mas, então, no mesmo instante em que me posicionei para um ataque ou para uma defesa... relaxei o corpo.

Eu não podia usar minha magia. Eu sou uma Fúria da Noite, qualquer pedido meu transforma a natureza em uma força furiosa e sem controle... que mal eu causaria se invocasse a proteção do Oceano? Que devastação provocaria se invocasse a fúria dos ventos? Não, eu não poderia fazer isso, não podia correr o risco de liberar a força da Natureza sem medir suas conseqüências. Havia algo de errado neste lugar, alguma coisa aconteceu e alterou as coisas, eu sinto isso em meus ossos, como também sinto estar caminhando direto para uma armadilha... completamente desprotegida caso não ousasse invocar meus poderes.

E foi como desconfiei... Lizii não estava à vista em nosso pequeno acampamento... ela não deixou rastros ou qualquer sinal de que havia partido, assim como não havia sinal de Ethan e meu coração se tornou pesado. Sob as árvores frondosas restou apenas os vestígios de uma fogueira adormecida, as brasas vermelhas se apagando aos poucos... estalando no ar frio da manhã, percebi que não havia rastros na areia, seja lá o que for que tenha acontecido, Lizii deixou o acampamento de forma sorrateira.

Foi quando ouvi um silve veloz no vento, e não era o soprar natural dos ares mais altos, não era uma brisa comum... era o som de um corpo veloz cortando o ar, vincando a areia, quase voando em minha direção. Eu senti a alteração na natureza, na terra e no céu, soube que havia criaturas sobrenaturais próxima a mim e me lembrei do som que elas faziam quando cortavam o ar em sua correria desabalada: vampiros.

Imediatamente – e imagino que isso significa um ou dois milésimos de centésimos de segundos – eu invoquei minha aura de magia e estava prestes a sussurrar um encantamento de proteção, quando, involuntariamente... eu novamente hesitei. O que aconteceria se eu perdesse o controle como aconteceu com a sequóia gigante na floresta? O que aconteceria se despertasse a fúria dos ventos marinhos, da areia ou do Oceano?

- Bem, não era exatamente a que procurávamos, mas pelo menos é uma delas... não é mesmo? – disse uma voz súbita alguns passos atrás de mim, ao me virar dei de cara com um vampiro belo de compleições fortes e olhos ígneos.

- Demetri – chamou uma segunda voz, de um vampiro saindo da floresta, era muito mais jovem e muito mais belo que o que falara primeiro, seus olhos também rubros era cheios de uma suspeita incontida – Você rastreou a errada, esta é a feiticeira... não a elfa.

- Eu sei disso, Alec – respondeu Demetri com escárnio – Mas a elfa desapareceu assim que colocamos os pés neste lugar... pelo visto a feiticeira não é tão esperta, não é mesmo? E parece tão frágil... não sei como pode ter dado tanto trabalho assim para Felix.

- Não a subestime Demetri – tornou a falar Alex Volturi e lembrando a história que Lizii me contou eu olhei para aquele que havia destruído o coração e o mundo de minha amiga – As Fúrias da Noite são poderosíssimas.

- Como é que você....!? – eu falei num misto de espanto e choque, eu mesma acabara de descobrir o que o vampiro já sabia, comprovando que pelo visto eu era sempre a ultima a saber das coisas – Onde está Lizii? - eu perguntei nervosa com medo de invocar minha magia e destruir tudo.

- Eu esperava que você pudesse me dizer, Sophia – disse Alec se aproximando de mim – Há muito tempo eu procuro por minha esposa...

- Esposa??? – eu gaguejei me afastando.

- Pelo visto ela não lhe contou... – respondeu ele num sorriso sarcástico – Meus mestres ainda possuem interesse nos Cristal dos Mil Caminhos e eu fui incumbido de encontrá-lo... por isso, minha querida feiticeira... onde está Lizii?

- Eu não sei. – respondi convicta.

- Demetri? – chamou Alec com um sinal e momentos depois o vento uivou e eu senti uma mão de aço entrelaçar minha garganta, tão pesada e inflexível que minha respiração começou a falhar instantaneamente. Minha visão borrou e eu não conseguia pensar... não ousaria invocar meus poderes e correr o risco de despertar a fúria da natureza... seria melhor, talvez, morrer ali mesmo.

Foi quanto ouvi uma voz conhecida, uma voz que aquecia meu coração... alguém que estava preocupada por ter sumido e que imaginei em perigo por causa dos vampiros... mas agora meus olhos se abriam para o homem maltrapilho e de olhar severo parado sobre a areia da praia e encarando os vampiros com indignação.

- Soltem-na... Agora – falou ela numa voz fria, e com um aceno de Alec eu fui solta, caiindo esparramada no chão... mas minha preocupação estava em Ethan, o que ele poderia fazer contra dois vampiros?

- Não ouse nos bradar ordens... alquimista – disse Demetri num tom de escárnio.

- Ela é importante ao meu mestre, vampiro – disse Ethan sem me olhar – Lembre-se que nossos mestres estão unidos agora, e meu senhor não ficaria contende se a menina fosse ferida de alguma forma.

- Que seja, mas ela é responsabilidade sua... nós estamos ocupados procurando pela elfa – rugiu o vampiro enquanto eu me levantava sem compreender nada.

- Não seja tão brusco, Demetri – disse Alec – Nós prendemos a feiticeira, Lizii virá atrás dela... ela não permitira que Sophia fosse capturada a toa. Agora vamos, voltemos para o palácio, e Ethan, você cuida da prisioneira de seu mestre.



Então eu voltei meus olhos para Ethan sem compreender... ele estava lá parado, incapaz de me olhar nos olhos, incapaz de me encarar, seria possível? Ethan trabalhava em conjunto com os vampiros? Não, isso não poderia estar acontecendo, ele não era um traidor, deveria ser algum artifício para poder ajudar a mim e a Lizii.

- Ethan? – eu chamei confusa, ele não encarou meus olhos.

- Eu sinto muito, Sophia – respondeu ele em voz baixa – Mas eu tenho que levá-la até o meu mestre...

- Mestre?

- O Mago-Corvo... Cagliostro, seu pai.

- Você serve a ele? Então sabia que eu... você sabia o tempo todo? Nos conduziu até aqui... numa armadilha?

- Eu sinto muito, as coisas saíram do controle... eu não desejava isso, mas não tive escolha.

Meu peito arfava em busca de ar, minhas forças pareciam ter se esvaído como água sendo absorvida pela areia da praia; meu coração acelerado retumbava em meu peito, mas apesar da traição de Ethan, apesar de eu ter me apaixonado pelo homem que acabara de me trair... eu não estava com raiva.

Não conseguia reunir qualquer sentimento, era como se minha alma estivesse vazia e desolada, eu encarei Ethan e as lágrimas rolaram pelo meu rosto, ele assumiu uma expressão de dor, como se estivesse profundamente arrependido do que fizera, mas era tarde demais. O mal já estava feito. Eu me levantei totalmente desamparada, descobri que eu não era eu, descobri que nada em minha vida era verdadeiro e acabara de ser traída pelo homem que havia conquistado pela primeira vez o meu coração.

- Faça o que tem de fazer, Ethan – eu disse erguendo os meus pulsos para ele em sinal de rendição.

- Sophia...

- Vamos, de uma vez por todas. Eu desisto, não tenho mais forças para lutar... não tenho mais forças para compreender; farei o que quiser.

Ethan, parecendo desolado, indicou com a mão o caminho para que eu fosse à frente; cansada, deprimida e sem quaisquer forças para revidar as traições dos últimos dias... eu fiz o que ele ordenou sem conhecer o meu destino. Olhei para as árvores altas enquanto nos afastávamos do faiscante mar do Mediterrâneo, ali, através das folhas verdes o sol brilhava forte e eu pensei em Lizii.

Com sorte ela tinha conseguido escapar dos vampiros e se abrigou bem longe. “Por favor, minha amiga”, pensei comigo mesma dirigindo as palavras à Lizii, “não volte por mim, fuja, fuja para longe e não volte mais”.



O caminho foi longo, seguimos a pé, apenas eu e Ethan, ele atrás silencioso e austero e eu na frente, cansada e perdida. Logo o mar ficou para trás e a areia da praia foi substituída pelos campos verdejantes da Itália, vinhedos se espalhavam pelas colinas e planícies adocicando o ar com um aroma de uva fresca; o céu era azul e profundo, as pessoas sorridentes e educadas passavam cumprimentando sem nem imaginar o que éramos de fato... era um lugar lindo, uma pena que minha alma estivesse despedaçada.

Logo, Ethan me conduziu por uma estrada estreita que serpenteava colina acima, nos dias em que viajamos juntos ele não tentou se explicar e um silêncio profundo nos cercou afastando-nos da proximidade que acabamos adquirindo na praia. Era algo terrível, eu estava apaixonada pelo homem que acabara de me causar uma terrível desilusão, mas, para piorar, eu simplesmente não conseguia dizer nada... nenhuma idéia se formava em minha mente e eu também não queria ouvir nenhuma explicação.

Perdida em pensamentos e preocupada com o paradeiro de Lizii, eu não percebi quando uma densa muralha se ergueu à minha frente, de dentro da muralha um castelo antigo e charmoso me encarou com severidade. Um cheiro de morte exalava dele e eu me surpreendi pelas pessoas ali perto não sentirem isso, imediatamente, um frio desceu pelas minhas costas num arrepio desmedido... eu percebi o que era aquele castelo: um covil de vampiros.

Apesar de sentir medo eu não parei, não faria diferença... agora tudo o que acontecesse não faria diferença alguma. Eu era prisioneira do homem que amava, era filha de um mago sombrio... era um Fúria da Noite.

E tão logo entramos pelo portão, um rapaz bonito que eu reconheci de imediato sorriu para mim, estava elegantemente trajando roupas pretas, um sorriso perfeito contrastando com seus olhos ígneos; belo como todos os vampiros e letal como nenhum outro.

- Bem vinda a Volterra, Sophia – disse Alec polidamente tocando meu rosto com sua mão gelada – Eu gostaria de saber, antes de entrarmos, onde está a minha esposa... onde está Lizii?



E eu fechei meus olhos por um segundo, estava definitivamente...



... ferrada.

15 de jun. de 2011

Posted by sandry costa On 6/15/2011


O reencontro
Hera
Continuei a encarando com a mesma intensidade, seria possível o destino brincar mais uma vez com meu coração? Eu suportaria, mas uma decepção? Ela começou a andar pra trás com uma cara assustada se atrapalhando um pouco nos saltos altos, como só a Murgen podia fazer, esbarrando sem querer em um grupo de caras que estavam conversando por ali, sem querer ela fez um derramar bebida no outro que logo se alterou. Meu instinto de proteção que antes estava adormecido reascendeu do nada, como se fosse mesmo a Murgen que estivesse ali. Um deles a segurava pelo braço e a sacudia com brutalidade, com cara de divertimento. A raiva que a pouco foi acordada, agora floresceu ainda mais, ela não estava reagindo, ainda estava com a mesma cara entorpecida, por que ela não estava reagindo? Fui chegando, mas perto, ouvindo o que eles estavam dizendo.

- Que séria! Você tem nome gatinha?- Ele dizia com uma voz totalmente bêbada.

- Tire as mãos de mim. - Ela disse, mas não parecia convicta, ainda estava assustada.

- Que isso, vamos brincar... - Quando ele estava prestes a beijá-la a força, eu cheguei, empurrei os outros que estavam na minha frente, esses me olharam interrogativamente. Cutuquei o ombro de quem tentava abusar de minha amiga, ou melhor, da mulher que parecia ser minha amiga, não importa, meus sentimentos e instintos de proteção continuam os mesmos. Ele se virou e me olhou de forma superior.

- A moça mandou soltar. - Falei impaciente o encarando de forma desafiadora. Murgen, quer dizer, a mulher me olhava ainda mais assustada.

- Vaza se não, quiser ser a próxima. - Então ele se virou me ignorando, bom eu tentei avisar. O puxei pra se virar pra mim, fazendo largar a mulher bruscamente, me bati mentalmente por isso, ela poderia ter se machucado. Ele se espantou com minha força.

- Você que pediu. - O acertei bem no meio da cara quebrando seu nariz, ele caiu inconsciente. – Aprenda a ser delicado com uma mulher. - Falei pro seu corpo estirado, e ainda me virei pra deixar um recado aos outros. - Alguém mais?- Como previ, todos saíram às pressas, logo em seguida apareceu um policial da região.

-Κυρίες, είναι όλα εντάξει?- Ele falava grego, perguntando se estava tudo bem, logo olhei pra mulher que ainda estava no chão olhando pra mim.

-Ναι, όλα είναι καλά, ευχαριστώ. - Respondi que estava ele ainda olhou preocupado para nós, mas logo se retirou. Virei-me para ela e estendi a mão.
Murgen

O olhar dela continua intenso, tudo em minha mente girou. É impossível!
A Hera esta morta! Muita coisa para processar... Só pode ser isso, que esta
Levando-me a essa alucinação!
Ela estendeu a mão pra mim com aquele mesmo olhar que anos atrás me estendeu uma água viva... Tirou qualquer duvida que fosse um sonho.
Não foi minha intenção fazer desfeita, mas entenda, encontro-me em estado de choque! E não consegui reagir... Aquele olhar...
Ela abaixou a mão e ia se virando - Espera! – pedi. Por mais assustada que estivesse deveria agradecê-la ela me livrou de confusão exatamente como Hera faria... Não! Ela não é a Hera! Não pode ser a Hera... Hera está morta! – repeti mentalmente, enquanto me levantava, tentando me convencer que meus olhos pregavam-me uma peça.
_obrigado! A algo que possa fazer para recompensá-la? – minha voz saiu tremula. Essa mulher deve me achar louca.
Ela me olhou desconfiada, e antes que respondesse falei
_Não se ofenda, por favor, mas que tal uma arrumada no visual?
Tenho uma amiga naquela loja, ela me deixa pegar o que quiser posso arrumar roupas melhores pra você. – tentei ser o mais doce possível e creio que fiz bem, pois ela apenas assentiu com a cabeça e me seguiu.
Foi fácil me acostumar à mulher e por incrível que parece, a cada hora ela me parecia menos a Hera.
Algo no seu modo de agir revelava que naquele coração existia raiva e muita magoa, não sei se já me convenci disso, mas consigo ler as pessoas facilmente e essa mulher pode ser parecida fisicamente e ate em certos aspectos com a minha irmã, só que definitivamente não é ela.
Hera evitava as coisas muito escuras, e essa mulher caprichou nas cores vestindo um vestido azul marinho colado ao corpo de manga longa que vai até o meio das cochas com listras brancas e um cinto vermelho.
Algo muito moderno para uma semideusa.

Saímos da loja em silencio, ela me acompanhou ate a parte menos barulhenta do vilarejo, o orla da pequena floresta vizinha da praia.

_Bom eu fico aqui! - Ela disse em tom de despedida!
_Mais uma vez, obrigada! E perdoe meu jeito – eu disse, ela sorriu sem que atingisse seu olhar e afirmou com a cabeça se virando para ir, nesse momento meu peito apertou, tentei me convencer que era reação a esse novo corpo, a essa nova Murgen e que não tinha nada haver com a minha irmã.
Hera
Definitivamente o destino me odeia, essa mulher é a cara da Murgen. Seu jeito de falar, sua fisionomia, mas definitivamente não era ela. É logicamente impossível ser ela, primeiro que Murgen é uma sereia que precisa ficar na água 24 horas por dia a não ser em noites de lua cheia e segundo, essa mulher apesar de ser igual, seu interior é diferente. Ela parece mais madura que a Murgen, apesar de ser gentil a sua maneira é claro, sinto que por dentro ela é mais... Crescida? A minha Murgen era mais alegre, mais infantil de um jeito bom, essa parece triste, como se tivessem roubado sua alegria.
Ela se ofereceu pra comprar roupas pra mim, de uma forma bem... Diferente? Bom, se fosse outra pessoa recusaria, mas como estava curiosa pra conhecer essa possível Murgen, aceitei, não só porque eu realmente estava precisando de roupas, mas porque de alguma forma não queria me distanciar dessa mulher. Meu instinto de proteção, talvez?
Saímos, e seguimos em silencio, a acompanhei até onde meu caminho seguisse com o dela. Percebi que ela continuaria reto  e eu teria que virar, já que não poderia mais me demorar por aqui, mas de alguma forma aquilo me entristeceu, não queria deixar a mulher parecia que eu estava abandonado Murgen outra vez. Só que infelizmente mais cedo ou mais tarde eu teria que ir.
- Bom eu fico aqui. - Disse me despedindo, seu olhar me pareceu... Triste?
- Mais uma vez obrigada! E perdoe meu jeito. - Dei um meio sorriso e apenas acenei com a cabeça, não queria prolongar mais aquilo, pois uma hora teríamos que nos separar, ela não poderia saber da minha vida, então era melhor que não quisesse saber da dela. Virei-me pra partir e ainda senti seu olhar em mim, me recusei a virar e continuei andando.
- Espera!- Ela gritou, parei automaticamente. Apesar de saber que não dar um fim logo nisso, pois sabendo que meu coração iria se partir se eu confundisse mais as coisas. Não pude evitar era como se Murgen estivesse me chamando. Virei-me lentamente e ela veio andando até mim, parou a mais ou menos um metro de distancia, ela abria a boca mais não saia som como se estivesse totalmente confusa e insegura.
- Sabe é que você... Não esquece provavelmente... Você tem quantos... - Ri de sua confusão ela sorriu também e disse. - Você deve me achar louca.
- Provavelmente- ri mais um pouco. - mas pelo que você viu, também deve me achar uma. - Ela sorriu, ficamos, mas um tempo em silencio.
- É que você parece muito com alguém que eu conheci há muito tempo. - Ela disse, finalmente quebrando o silencio, não me contive e revelei meus pensamentos.
- Tenho a mesma sensação. - Nossos olhares se cruzaram, uma assimilando o que a outra disse.
- Mas é impossível!- Dissemos juntas, dessa vez, nos olhamos com espanto.
Murgen
 Maldito seja esse meu jeito impulsivo. Não quero mais sofrer com ilusões, Contudo minha mente diz uma coisa e meu coração outra. Lógica e racionalmente aquela não pode ser a Hera, mais por que a agonia ao vê-la partir? Por que essa sensação incapacitante?
 Um erro? Talvez! Mas não consegui segurar o que sentia e botei pra fora o que estava pensando! E o incrível é que ela reagiu da maneira que a Hera reagiria isso inflamou a esperança em mim.
Espanto, não é a palavra adequada para a sensação que tive, quando afirmamos juntas ser impossível, foi ai que me convenci: os sentimentos realmente enganam-se.
Só que... Tarde de mais para apenas me virar e ir abri uma brecha enorme para aquela mulher e o pior ela não pode saber da minha identidade, sou um ser que não deveria existir aos olhos humanos.
_Você parece muito triste! Essa pessoa é importante pra você. Não é?! – apenas afirmei com a cabeça – Sabe às vezes falar faz bem, me diga como ela é.
A mulher me olhava analítica, como se estudasse minhas reações. com certeza acredita que sou louca. Confesso que não quero falar sobre isso, vai me fazer lembrar a dor. Só que com ela me olhando com aqueles olhos azuis como as águas profundas do oceano...
_Não é, era. Ela esta morta!  E já faz muito tempo! – disse e me encaminhei à praia, acho que por força do habito. Esperava que ela apenas fosse embora, mas ela no o fez e acompanhou meus passos.
E lá estávamos nós, caminhando lado a lado nas areias da praia em que a vida me deu e tirou tantas coisas, a mesma areia que me acolheu tantas vezes, agora sustentava uma Murgen ferida por mais essa ilusão! 
_Como ela morreu?! – a mulher mostrou curiosidade, mas como explicar a morte de uma semideusa a uma mortal?
_Isso não importa mais! É esse lugar. Sempre me faz lembrar ela, vai ver é por isso, que a confundi com você. Os seus olhos se parecem muito.
A mulher encarou o mar por um momento, sentou-se na rocha próxima e me pediu _fale-me sobre ela...
Hera
Ela me olhou meio hesitante, meio em duvida sobre contar ou não contar, mas acho que ela cedeu a briga interna em seu coração, sentou-se em uma rocha próxima a minha. Ficamos por um curto tempo admirando o sol, o modo preguiçoso de a onda bater na areia, absortas em pensamentos. Mas no fim ela resolveu quebrar o silencio.
_Ela foi à melhor pessoa que já conheci – começou em um tom saudoso - ela era sempre muito centrada, nunca demonstrava o que estava sentindo. Tinha a mania de me proteger. – ela sorriu abertamente me fazendo sorrir involuntariamente - era uma pessoa maravilhosa, que não teve tempo de conhecer o mundo, graças a um ser desprezível, que não sabe o que é amor. Agora ela demonstrava rancor.
_ Nós costumávamos correr por essa praia e a dançar sem música, mesmo depois de crescidas, costumávamos a nadar juntas mesmo ela sendo digamos, mais pássaro do que peixe. Posso compará-la a uma águia que enxerga longe e é astuta. - Ela pausou tristonha - prometemos nunca abandonar uma à outra, mas o destino não quis assim.
Os olhos dela estavam marejados. Eu não tinha palavras pra descrever o que estava sentindo, era mesmo a Murgen, segurei o impulso de abraçá-la, pois ainda queria ouvir mais do que ela tinha a dizer, mas não contive uma lagrima que desceu pelo meu rosto. Minha amiga, minha irmã estava realmente ali! Como?!
_ Lembro desse dia, ela estava queixosa. - Continuou Murgen - a muito não ficávamos sozinhas, ela acreditava que nunca conheceria alguém e a incentivei, dizendo que ser maravilhoso ela era e ela disse que não precisava de ninguém especial, pois já me tinha a mim.
Meu coração martelava no peito, depois de todos esses anos, depois de tantas maldições, finalmente algo bom. Murgen estava absorta nas nossas lembranças e enxugando suas lágrimas que também banhavam meu rosto.
_Sempre nos encontrávamos ali. - Ela apontou para o lugar, que todos os dias, ao entardecer, eu ficava esperando e continuo, muitas vezes, lembrando da minha vida sem a maldição. Agora ela estava sorrindo levemente assim como eu.
_Ela sempre chegava primeiro, constantemente impaciente com a minha demora e eu sempre a ouvia dizer...

- Por que demorou tanto Murgen. - Me apressei em falar pra ela entender que era “eu” que estava ali. Ela virou o rosto lentamente estava com uma cara totalmente surpresa, eu não sabia se ria ou se chorava, mas mesmo com a voz embargada continuei. - E você sempre dizia que não se atrasava que eu era a certinha adiantada.

- Hera... - Ela disse não acreditando no que estava acontecendo, nem eu acreditava ainda achava que era um sonho, mas se fosse não queria acordar nunca mais. Lagrimas caiam de nossos olhos, sem saber muito o quê fazer e praticamente soluçando disse.

- Dessa vez você demorou mesmo. – Ela não esperou mais, nem uma segundo se quer, pulou em cima de mim, nos fazendo cair na areia, como só a Murgen, com saudades e carinho. Eu estava segura mais uma vez, estava em casa.

- Como? Como você ta aqui? Como você sobreviveu? - Murgen me encha de perguntas ainda abraçada a mim, porém não deu tempo para responder, pois quase no mesmo instante uma onda nos engoliu nos levando, mas pra perto do mar, nos separamos por causa do impacto, conseqüentemente eu engoli um pouco de água, fazendo com que perdesse o ar e tossi-se exageradamente. Ao longe eu ouvia os gritos desesperados da Murgen. – _Hera! Meu Deus, Hera! Desculpe-me, me desculpe, me desculpe!- Logo ela já estava do meu lado me amparando e me dando a mão pra levantar, que segurei sem demora, ainda cambaleando eu levantei. Ambas estávamos encharcadas, nosso estado era cômico. – Você está bem?
- Sim, acho que sim. Bom fora isso, não me sinto bem há um bom tempo. – Dei um sorriso aberto pra que ela entendesse que aquele pequeno incidente era fruto da nossa felicidade e que não importava.
- É que isso acontece quando minhas emoções ficam aos extremos. – Ela mexia os braços levando as mãos aos cabelos, a boca, tentando se explicar deixando a situação ainda mais cômica.
***
A cena realmente era cômica, contudo muito gratificante. Hera mantinha um olhar terno para Murgen que por sua vez exibia um largo sorriso em sua fase. Com a mais absoluta certeza esse momento, como muitos outros na vida de todos os seres existentes, era único. Finalmente algo de bom acontecia na vida de ambas, depois de tantas lutas e perdas, os corações se enchiam de conforto, carinho e acima de tudo, esperança! Uma esperança tirada da força de uma amizade que nem as circunstâncias, nem à distância e muito menos o tempo, foi capaz, de sequer enfraquecer, pois no memento em que se viram, por mais que a mente disse se que não, elas se reconheceram... Com o coração!
Murgen ajudou Hera a sair do mar, não por necessidade, mas para tocá-la e ter certeza que esse não era mais um de seus sonhos. Aos poucos as respostas foram respondidas e a realidade das circunstâncias as atingia.
_Você nunca será um mostro! Mesmo que se transforme fisicamente em um! Levante essa cabeça amiga, prefiro essa maldição a esse sentimento de vazio que senti quando pensei que estava morta!
Murgen consolava uma Hera cabisbaixa, com a sua condição. E praguejava em sua língua aquática, a Zeus por ter cometido tamanho mal, pois acredita cegamente que um ser que é deus de deus deva ser amor e liberar perdão!
Hera sorriu, como a muito não fazia e sentiu seu rosto estranho por estar acostumada a seriedade que lhe acompanhou durante todos esses anos. Hera não sabia como sabia, mas tinha convicção que essa felicidade não lhe seria duradoura.
A conversa saudosa entre as amigas, mais chegadas que irmãs, continuo, ate que a quimera perguntou a sereia o que fora feito do seu mais fiel guardião, a harpia que ela tanto se apegou e que a sereia tanto amou.
Ainda o amo como antes Hera, mais forte até! Ele me disse que você já sabia sobre o nosso laço, bom ele realmente existe e é inquebrável, pois o amo mais que nunca, mesmo estando longe!
_Sim Murgen, mas o que aconteceu com ele que te deixa com o olhar distante – Hera como sempre muito perspicaz não deixou passar o olhar da amiga! 
Nesse momento as lagrimas correram pelo rosto de porcelana da sereia, que agora aparentava um ar infantil completamente diferente da segurança adulta que ainda pouco demonstrava para uma suposta desconhecida!
_Você esta me assustando! O que houve com o Atheir? Ele esta longe como?
_Hera é uma longa historia!... Ele foi seqüestrado! – Hera sentia um peso no peito, pois sempre considerou Atheir, desde o dia em que ele não a entregou aos guardas do Olímpio. Ela movimentou a cabeça incentivando a Murgen a continuar e assim foi feito!
_Foram os filhos do Mestre do submundo. Eles me queriam e não a ele. Foi confuso, eu ainda estava pressa ao mar e logo depois era humana, Atheir tentou lutar, o ajudei. Contudo a forma humana é nosso ponto vulnerável, eu caí no momento em que ele, mas precisava de mim, acordei em casa. Hera foi o pior momento de minha vida.
Hera não tinha palavras, e compreendia perfeitamente a situação de Murgen ela mesma se encontrava nessa situação. Querendo se sentir a presença do  único homem que a aceitou como ela é!  E ver o sofrimento nos olhos da amiga a fazia sofrer também!
_Murgen você acabou de dizer que a forma humana é seu ponto vulnerável! Porque procurou as feiticeiras? Não entendo?
_Eu as procurei porque preciso ir atrás dele. Preciso libertá-lo e foi à única maneira que encontrei de pode ir resgatá-lo! - Hera sabia o tamanho do sacrifício que Murgen se sujeitava ao ficar fora do mar. E isso só provava a força desse amor, mas também sabia que seja lá quais filhos de Hades os levaram Murgen estaria em perigo no meio deles!
Amiga pensa direito! É perigoso demais ir ate eles sozinha, e vulnerável! Você pode se ferir!
Então venha comigo Hera?! Ajude-me! –a sereia mantinha a esperança acessa em seu coração, finalmente não estaria sozinha, ate que a quimera perdida em fatos que omitiu a amiga por vergonha, hesitou em responder.