2 de jan de 2012

Capitulo 6

Posted by sandry costa On 1/02/2012 No comments


 PRAZER, EU SOU UM VAMPIRO
QUEM SABE ISSO QUER DIZER AMOR
(Lô Borges – Voz: Milton Nascimento)
Cheguei a tempo de te ver acordar
Eu vim correndo a frente do sol 
Abri a porta e antes de entrar,
Revi a vida inteira. 
Pensei em tudo que é possível falar
Que sirva apenas para nós dois 
Sinais de bem, desejos de cais
Pequenos fragmentos de luz. 
Falar da cor dos temporais
De céu azul, das flores de abril 
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu. 
O mundo lá, sempre a rodar
Em cima dele tudo vale 
Quem sabe isso quer dizer amor,
Estrada de fazer
O sonho acontecer 
Pensei no tempo e era tempo demais
Você olhou, sorrindo pra mim 
Me acenou com um beijo de paz
Virou minha cabeça 
Eu simplesmente não consigo parar
Lá fora o dia já clareou 
Mas se você quiser transformar
O ribeirão em braço de mar 
Você vai ter que encontrar
Aonde nasce a fonte do ser 
E perceber meu coração
Bater mais forte só por você 
O mundo lá, sempre a rodar
Em cima dele tudo vale 
Quem sabe isso quer dizer amor,
Estrada de fazer
O sonho acontecer.
– Você é dez anos mais novo que eu... Eu não devia estar fazendo isso. – Ela sussurrou, ainda perdida em seu olhar.
– Fazendo o quê? – Edward perguntou, displicentemente.
– Me apaixonando por você... – Bella não sabia se tinha apenas pensado ou falado realmente aquelas palavras.
Edward virou o rosto bruscamente para o lado, encarando Bella.
– Repete! Não acredito que disse isso.– Ele falou, esboçando um sorriso de orelha a orelha.
– Disse o quê? – Bella perguntou, com o rosto completamente corado.
– Que está se apaixonando por mim.
OMG, eu falei mesmo!”
– Eu disse “me aproximando de você”. Entendeu errado. – Bella tentou consertar a burrada que tinha feito.
– Não disse não, eu ouvi muito bem. – Edward insistiu, ainda sorrindo.
– Eu sei o que eu falei! – Falou brava, procurando ser bastante persuasiva.
– Bella, minha audição é perfeita. Eu sei bem o que eu ouvi! – Ele agora estava rindo.
– Olhe para a estrada ou nós vamos acabar nos acidentando. – Bella tentou mudar o assunto, rolando os olhos de irritação.
– Ah, como se eu precisasse! – Edward murmurou. - Está bem, não vamos falar sobre isso agora, mas você sabe que falou!!
– Pense o que quiser. É típico de garotos da sua idade ficarem imaginando coisas.
– Eu não sou um garoto, Bella, e ainda vou te mostrar isso. – Edward disse aquelas palavras olhando para frente como ela havia pedido, agora sério. Mas isso não impediu Bella de ficar com o rosto pegando fogo.
Seus pensamentos tomaram vida própria e as mais variadas formas de como Edward lhe mostraria que era um homem de verdade começou a inundar sua cabeça, fazendo seu coração se acelerar.
Bella se entregou àquelas fantasias, sentindo seu sexo se umedecer e latejar. Podia sentir seu sangue correr em suas veias, esquentando todas as células do seu corpo. Ficara muito tempo sem sentir esse tipo de sensação... Aquela excitação gratuita, que dispensava qualquer toque físico, alimentando-se apenas de sua imaginação.
Depois de Edward tudo tinha mudado. Era como se suas pilhas tivessem sido recarregadas, fazendo-a acordar para o sexo novamente. Se não se controlasse ela teria um orgasmo ali mesmo no carro.
O que está acontecendo comigo, meu DeusQue fogo é esse?”
Quando finalmente se controlou, Bella percebeu que ele estava inquieto. Suas mãos apertavam firmemente o volante e todo seu corpo parecia contraído.
“É impressão minha ou ele está prendendo a respiração?”
– O que foi, Bella? – Edward perguntou, ainda olhando para a estrada.
Foi então que ela percebeu que seu olhar estava parado nele, mas não entendeu como ele podia saber disso, já que olhava para outra direção.
– Nada. Você apenas está me parecendo... Sei lá, meio tenso.
– Concentre-se na paisagem, Bella, por favor! Admire a natureza, olhe os pássaros, mas por Deus, não pense em mais nada. – Parecia que ele estava implorando a ela parasse com o que estava fazendo.
– Eu, heim! Tudo bem... – Falou, sem entender direito o que acabara de acontecer naquele carro.
De repente, sem que tivesse percebido, eles estavam numa estradinha de terra, no meio da mata.
Edward parou o carro e se virou para Bella.
– Teremos de caminhar um pouco. Importa-se?
– Caminhar, no meio da mata?
– Acha que consegue?
– Tive treinamento no FBI. Ainda tenho um bom condicionamento.
– Então vamos. O lugar não fica muito longe, apenas uns vinte minutos de caminhada, no seu ritmo.
– Não vou nem perguntar o que quis dizer com essa história de “meu ritmo”. Já me estressei demais para discutir comportamento machista com você.
Edward apenas gargalhou. Depois pegou uma grande mochila que estava no banco de trás e colocou em suas costas.
– Vamos, Bella!
– Vamos! – Ela disse, estendendo a mão amigavelmente para ele, esperando que Edward a segurasse.
Mas não foi isso que aconteceu. Edward permaneceu imóvel, não dando nem sinais de corresponder ao seu gesto.
Bella sentiu-se extremamente envergonhada. Tinha se comportado como uma oferecida, alguém que estava forçando uma intimidade que não havia entre eles.
Edward abaixou a cabeça e ficou encarando o chão. Parecia constrangido com seu comportamento.
– É melhor irmos. – Falou por fim, enfiando as mãos no casaco como se quisesse protegê-las de alguma coisa... Ou de alguém, concluiu Bella, cheia de tristeza.
Caminharam no mais completo silêncio nos primeiros minutos, até que a situação se tornou insuportável para ela.
– Edward, afinal o que quer comigo? Uma hora você diz que quer me conhecer melhor e que tem um fascínio por mim, mas em outra se esquiva do meu toque como se eu tivesse uma doença contagiosa. Desculpe-se, mas mesmo sendo psicóloga, está difícil te entender. – Bella desabafou, impaciente.
– Eu sei, Bella. Espere até chegarmos à campina e eu te explico tudo.
– Pare de me pedir para esperar! O que segurar minha mão tem a ver com isso? Eu só queria me sentir mais segura, só isso. – Nem Bella tinha percebido o quanto aquilo a tinha magoado.
Quando viu, Edward estava com o braço esticado, oferecendo-lhe a mão.
Bella ficou sem saber o que fazer. Aquele gesto a pegou de surpresa.
– Esquece, Edward. Eu consigo me manter em pé sem sua ajuda. – Falou, sorrindo em sinal de trégua. Não havia mais clima para andarem de mãos dadas.
– Está certo, doutora. Você quem manda!
– Vai voltar a me chamar de doutora?
– Só quando ficar brava. – Edward riu.
Bella rolou os olhos.
Adolescentes!!
– Vamos voltar a falar sobre o que você falou no carro? – Edward perguntou, sorrindo maliciosamente.
– NÃO!
– Ok, doutora. – Edward praticamente cochichou, continuando a sorrir com malícia.
Enfim fizeram a trilha, mas agora conversavam agradavelmente sobre gosto musical, filmes e atores que admiravam.
Algumas vezes, quando se desequilibrava, Bella percebia que Edward fazia menção de acudi-la e logo depois desistia, como se tivesse se arrependido do movimento inconsciente de ajudá-la.
Apesar do cansaço, os olhos de Bella se extasiaram com a visão magnífica da campina. Rodeado de árvores, o pequeno campo circular, forrado de flores lilases, era um oásis de cor perdido naquela profusão de verde.
– Meu Deus, Edward, isso aqui é tão lindo!!
– Eu sabia que ia gostar. Também não me canso de admirar este lugar.
– Fico imaginando quantas garotas já trouxe aqui.
Merda, merda, merda!! O que foi que eu falei? Vou dar uma de ciumenta agora?”
Bella se arrependeu do comentário inoportuno.
– Você é a primeira pessoa que trago aqui, Bella. É a única com quem quis compartilhar.
– Jura? Obri... obrigada, então. – Agradeceu timidamente, envergonhada por ter parecido tão infantil dizendo aquilo, mas feliz com as palavras dele.
O barulho do riacho que corria por perto aumentava ainda mais a sensação de paz que aquela campina transmitia.
Edward estendeu um enorme lençol branco sobre a relva e deitaram-se, admirando as nuvens cinza que cobriam o sol.
Se ele fosse realmente um assassino, pensou Bella, aquela era uma perfeita hora para morrer.
– E aí, Edward, qual é o grande segredo que queria me contar? – Perguntou enfim, respirando fundo e inalando o suave perfume que exalava das flores.
Edward passou as mãos no rosto e se sentou, demonstrando um nervosismo e aflição que não lhe era peculiar. Bella fez o mesmo, se sentado e encarando-o, um pouco surpresa com a fragilidade dele.
– Eu ensaiei tantas vezes como falar isso para você, mas agora não me vem nenhuma palavra oportuna para te explicar o que eu sou. Não sei como começar. – Ele estava completamente desconcertado.
– Comece pelo fim, Edward, é sempre mais objetivo. – Bella brincou, tentando relaxá-lo, embora realmente concordasse com aquele método.
Ele a encarou e depois sorriu, ainda que parecesse mais assustado que feliz.
– É, pode dar certo. Sendo assim... – Falou, fechando os olhos e olhando para o céu. - Bella, eu sou um vampiro.
– Eu detesto pessoas prolixas que ficam dando voltas e não dizem logo o que querem. Eu tinha uma amiga que...
Espera aí... O que foi que ele falou?”
– Você disse alguma coisa?
– Eu disse que eu sou um vampiro. – Edward repetiu, agora encarando-a.
– Sem metáforas, Edward. Não estamos em uma sessão de psicoterapia. O que realmente isso quer dizer? Seja mais claro.
– Isso quer dizer que eu estou tecnicamente morto há mais de um século, que eu me alimento de sangue, que minha pele é fria como a de um defunto, que sou terrivelmente letal e perigoso para os humanos e que não devia estar te contando isso de maneira nenhuma, se não fosse o fato de sentir uma necessidade incontrolável de estar perto de você e de querer mais que tudo na vida... ou na morte, que seja... que você me aceite do jeito que eu sou. – Edward nem ao menos tomou fôlego enquanto falava.
– Que história é essa, garoto? – Bella estava começando a estranhar o comportamento de Edward.
– Isso é sério, Bella. – Edward sempre parecia irritado quando ela o chamava de garoto. - Eu estou quebrando todas as regras da minha espécie por estar aqui com você, contando o meu segredo e esperando desesperadamente que você não saia correndo de medo de mim...
Bella não estava entendendo nada, mas aquilo não parecia uma brincadeira... Tinha um clima tenso entre eles. Nada ali soava descontraído como uma piada.
– Vo-você di-disse vampiro? Daqueles assim? – Bella fez uma careta tosca, projetando os dentes superiores sobre os lábios inferiores, para as presas sobressaírem-se.
Edward riu discretamente, balançando a cabeça, como se faz diante de uma criança.
– Nós não temos presas desenvolvidas, Bella, isso é coisa de cinema. O que temos são dentes fortíssimos e afiados. Eu poderia romper sua pele e sugar sua jugular sem fazer o menor esforço.
Bella levou as mãos ao pescoço, num gesto automático de defesa.
– Edward, que palhaçada é essa? Por que está falando essas coisas? Achei que realmente queria se abrir comigo. Não tenho tempo nem idade para essas criancices.
– E eu estou realmente me abrindo, Bella. Essa é a mais pura verdade. Eu sou um vampiro, acredite! Não me pergunte por que eu estou te contando isso, porque eu não faço a menor idéia. Nossa espécie se esconde muito bem e se não fosse o fato de estarmos congelados em nossos corpos imutáveis, poderíamos passar anos ao lado de humanos sem sermos descobertos. No entanto aqui estou eu, me expondo completamente para você, ansioso para saber qual será sua reação, embora eu saiba que só exista uma possível de se ter nesse caso...
Bella se levantou assustada. Aquela conversa estava tomando um rumo muito estranho.
Edward se levantou também e segurou seus braços.
– Não fuja, Bella, por favor!
Sua reação foi automática. Ao sentir aquela mão gelada lhe tocando, Bella se afastou, dando um pulo para trás.
Seus olhos arregalados fitaram os dele.
– Você está frio... Muito frio... Está gelado!
– Foi por isso que não quis te tocar naquela hora, Bella. Você iria se assustar.
– IRIA, NÃO, EU ESTOU ASSUSTADA! – Bella gritou, sentindo as lágrimas umedecerem seus olhos.
– Fique calma, eu não vou lhe fazer mal. Eu nunca lhe faria mal! Sei que é uma história assustadora e difícil de assimilar, mas me deixe te explicar melhor o que é ser um vampiro.
Bella piscou os olhos na esperança de acordar daquele pesadelo.
– Você é um vampiro mesmo? Daqueles que dormem em caixões? Que viram morcegos de noite? – As perguntas pareciam tão absurdas que Bella sentiu vergonha de fazê-las.
– Bella, esquece Hollywood, pelo amor de Deus! Essa baboseira cinematográfica não tem nada a ver com a minha espécie. – Edward se estressou.
– Então você não morde as pessoas no pescoço e as mata para beber o seu sangue?
Bella estava preste a ter uma crise histérica.
Edward abaixou o olhar e respirou fundo.
– Bem, essa parte é verdadeira, mas eu e minha família paramos de matar pessoas há muito tempo. Nós nos alimentamos de sangue animal agora.
– Você está me dizendo que bebe sangue, Edward? Meu Deus, que nojo!!
Pela primeira vez Bella percebeu que suas palavras o tinham afetado profundamente. Dava para ver em seu rosto.
– Edward, por favor, vamos ser racionais e encerrarmos esse teatro dos horrores que você armou. Eu já estou me sentindo ridícula levando esse assunto para frente. Isso é um total absurdo! Hum... A não ser que... – Bella se lembrou de um programa que tinha assistido na televisão.
– Meu Deus, eu já ouvi falar disso!! –Continuou. - São aqueles grupos de pessoas que se reúnem em porões para beber sangue em taças e fazerem sexo selvagem... Eu vi isso num programa da TV por assinatura!
– Agora você se superou, Bella! Dá para parar de falar besteira? – Pela cara que Edward fez, sua paciência tinha chegado ao fim.
Bella só teve tempo de ver o vulto dele saltando e sumindo de sua vista, até ouvir, segundos depois, seu grito no topo de uma altíssima árvore, da qual arremessou para longe um tronco imensamente grosso, que arrancou com as mãos, como se quebrasse o talo de uma margarida.
Ou seus olhos e seu cérebro estavam lhe pregando uma peça, ou estava diante de algo que definitivamente não era humano.
Sem ter sequer sua respiração alterada, Edward apareceu ao seu lado, instantes depois de dar seu show.
– O que... que foi isso? Co... como você fez aquilo...? Você subiu naquela árvore? Aquele tronco era enorme...
– Talvez você entenda melhor vendo do que ouvindo. Atos valem mais que palavras... Essas são algumas das coisas que posso fazer. Eu também leio mentes, Bella... Menos a sua.
Parecia que Edward estava decidido a deixá-la doida naquela manhã. E estava conseguindo.
Bella caiu num choro convulsivo. Não conseguia se controlar. Deixou seus joelhos baterem no chão com toda a força e levou as mãos ao rosto, se entregando completamente ao desespero.
Soluços histéricos saíam de sua garganta sem que ela pudesse fazer nada para evitá-los. Na verdade eram mais que soluços, eram gritos de pavor, de medo, de decepção, de raiva.
Seu momento perfeito tinha se desmoronado. Era sempre assim em sua vida: quando achava que poderia ser feliz algo acontecia para estragar tudo. Só que dessa vez o destino tinha exagerado.
Edward ajoelhou-se ao seu lado e a abraçou. Bella sentiu seu corpo duro e frio unir-se ao dela e aquilo a fez desesperar-se mais ainda, mas não tinha forças para empurrá-lo. Quanto mais constatava que aquela história tinha fundamento, mais chorava e se rendia à angústia.
As mãos dele afagavam carinhosamente seus cabelos e ele a apertava em seu peito, de onde provinha um perfume extremamente delicioso.
Ainda assim, mesmo que seu corpo se extasiasse com o conforto que aquele abraço lhe proporcionava, sobrepondo ao medo que estava sentindo, seu cérebro a avisava que sua segurança estava em risco. O arrepio que cobria sua pele era a prova disso.
Se alguma daquelas palavras que tinha ouvido da boca de Edward realmente fosse verdade, sua vida podia estar por um fio. Ela era o cordeiro daquela história e no momento se encontrava abraçada ao leão... Ainda que o leão tivesse prometido que não lhe faria nenhum mal.
Leão, fera, monstro... Edward acabara de confessar que era algo assim, mas que tipo de ser perigoso era aquele? - Bella se perguntava. - Ele não a assustava, não lhe causava repulsa, não lhe parecia pernicioso. Se existia um espaço entre o bem e o mal; se existia aquela linha tênue separando os dois lados, onde as definições inexistiam, era lá que aquele homem sem vida que a abraçava residia, pensou Bella. Se ele não era bom, também não podia ser considerado mau.. Não, Edward definitivamente não parecia alguém que pudesse lhe fazer mal.
Aos poucos Bella foi se acalmando. Já não havia mais o que tirar de seu peito. Nenhum grito, nenhuma lágrima... Tinha posto para fora todos os sentimentos que tinha. Era como se um vazio a preenchesse por inteiro.
Edward por fim levantou-se e ficou de costas, imóvel. Suas mãos descansavam nos bolsos laterais da calça e seus ombros estavam caídos, denunciando seu desolamento.
Bella ficou olhando para a figura alta, forte e presumidamente aterrorizante daquele que dizia ser um vampiro, mas a única coisa que conseguiu enxergar foi Edward Cullen, um garoto assustado e perdido, preso em uma maldição maligna que, para dizer bem a verdade, não lhe causava nenhum medo naquele momento.
Por que eu não me levanto e fujo agora mesmo? Por quê?...”
“Porque eu não quero, porque não é preciso.”
– Edward, - Bella chamou-o, também se levantando e recuperando o controle– desculpe minha crise despropositada. Estou me sentindo melhor. Podemos voltar a conversar.
Edward se virou para ela. Parecia estar sofrendo, mas a verdadeira expressão de seu rosto era difícil de ser decifrada.
– Bella, eu é que peço desculpas por tê-la envolvido em minha vida. Não sei de onde tirei a idéia de que isso pudesse dar certo...
– Não, eu não devia ter me descontrolado dessa forma, afinal sou a adulta aqui.
– Eu tenho cento e dez anos, Bella... O bebê aqui é você.
– Quantos?...
Ele falou cento e dez anos?”
– Acho melhor me contar tudo de uma vez, Edward. Essas informações em doses homeopáticas não estão ajudando muito. Desembucha tudo de uma vez porque eu já vi que sou mais forte do que imaginava.
Naquele resto de manhã Bella ouviu de Edward toda sua história e de sua família. Soube por que eles tinham optado pela dieta vegetariana (como Edward estranhamente a chamava); soube a verdadeira dimensão da força e velocidade dos vampiros e seus sentidos apurados; soube que eles eram praticamente imortais; que não saíam ao sol porque suas peles reagiam à luz da mesma forma que os diamantes... Enfim, foi apresentada a todos os detalhes importantes da espécie de Edward.
– E seus olhos, por que mudaram de cor?
– Eles ficam escuros quando eu estou com sede e dourados quando eu me alimento.
– Então naquele primeiro dia que te vi na prisão você estava faminto?
– É, eu estava... Eu poderia ter saído para caçar sem que ninguém soubesse, mas preferi não fazê-lo.
– Mas como você disse, não é mais difícil resistir ao sangue humano quando está com fome? Por que se arriscou tanto?
– Me arrisquei? – Ele perguntou sorrindo. – Quem corria risco era você, Bella. – Edward deu uma risada e depois ficou sério de novo. - Estava mesmo difícil resistir ao cheiro de vocês, mas são décadas de privação. A gente aprende a se controlar. E quanto a você... Não é bem o seu sangue que desperta minha fome.
Bella sentiu seu rosto queimar. Aquela mania de Edward de dizer frases de duplo sentido a deixava sem saber o que fazer. Já tinha feito muitas interpretações erradas e não queria se atrever a mais uma. Preferiu não comentar a última frase dele.
– Se você diz...
Aos poucos toda a história estava se tornando um pouco mais crível.
– Não está com medo de mim, Bella? – Edward perguntou, depois de um breve momento de silêncio, após tantas explicações.
– Não! Na verdade tudo isso ainda me parece meio surreal. É como se eu estivesse sonhando.
– Não deveria dizer “tendo um pesadelo”?
– Eu cheguei a pensar que sim, mas agora, te conhecendo melhor, o que me contou já não me parece tão assustador quanto antes.
Bella ainda tinha muitas perguntas a fazer, mas deixaria as mais difíceis para outra hora.
– Edward, por que você não consegue ler minha mente?
– Não sei, Bella. Eu já pensei em tantas possibilidades... Talvez não seja eu que não consiga, mas sim você que não permite.
– Como assim?
– Pode ser que pense em códigos – ele brincou.
– É, pode ser...
– Queria que eu pudesse saber o que você pensa?
Bella se lembrou das fantasias e sonhos que vinha tendo com ele.
– Não! Definitivamente não! – Falou, começando a rir.
– Acho melhor não perguntar por quê.
Os dois riram e a resposta ficou subentendida.
– Não come nada além de sangue? – Perguntou Bella, enquanto mordia um delicioso sanduiche que Edward tinha trazido em sua mochila.
– Eu “bebo” sangue, Bella. – Ele a corrigiu, rindo do seu jeito meio infantil. – E não, não como a comida dos humanos. É horrível.
– É nada. Quer um pedaço?
– Coma, Bella.
– Se não gosta dela, por que fica a toda hora me mandando comer? Quer me ver gorda?
– É que você me parece tão pequena e frágil.
– Sou pequena mas não sou frágil, Edward. Sou uma mulher calejada. A vida me obrigou a sê-lo. Perdi meus pais muito cedo. Passei parte da minha infância e adolescência em abrigos para menores. Não se sobrevive neles se não formos fortes.
O rosto de Edward se contraiu ao ouvir aquilo. Dava para perceber seu pesar com o que Bella tinha acabado de comentar.
– Eu sinto muito!
– Tudo bem, eu já superei.
– Eu queria ter podido evitar isso. Ter te poupado de tanto sofrimento.
– Me ajudar como, Edward? Você nem era nasci...
Bella parou abruptamente. Seu sangue congelou nas veias.
“Aqueles olhos... O armário... Os cortes nos pescoços... Meu Deus!!!”
– Vo... você tem alguma coisa a ver com a mor...morte dos meus pais? – Bella não sabia de onde tirou coragem para fazer aquela pergunta, que saiu num quase inaudível fio de voz.
O rosto de Edward se transformou em uma verdadeira máscara mortuária. De repente ele não tinha expressão nenhuma.
Apenas o som da natureza podia ser ouvido. Bella sequer respirava. Edward, idem.
– Fala, Edward... Tem?
Diga que não! Por favor, diga que não!!”
O pavor dela era que ele confirmasse aquela suposição. Não tinha o equilíbrio emocional necessário para se ver diante do assassino de sua família. Seria muito sadismo do destino.
– Bella, eu preferiria que conversássemos sobre isso outra hora, quando você já tivesse abstraído melhor nossa conversa de hoje.
– Isso é um “sim”, Edward? – Bella não sabia por quanto tempo mais aguentaria sem desmaiar.
– Não Bella, eu não os matei. – Edward falou sério, enfatizando a palavra “eu”.
Bella suspirou aliviada. Não sabia se ele estava mentindo ou não, mas era confortável e oportuno acreditar nele. Não estava em condições físicas nem psicológicas de enfrentar a verdade, se é que houvesse uma. Já tinha tido surpresas demais.
Sua vida tinha sido uma triste realidade desde que seus pais foram mortos. Sentira na carne o peso de ser sozinha. Era a primeira vez que alguém a fazia acreditar que era possível ser feliz... Mas esse alguém era um vampiro...
Bella ainda não sabia o que realmente tudo aquilo significava, mas decidiu que não abriria mão de sua felicidade, mesmo que tivesse de mergulhar naquele mundo de fantasias e perigos para onde Edward a estava levando. Ia voltar para aquele espaço onde estivera a pouco. Aquele onde as coisas simplesmente eram como eram, sem adjetivos ou questionamentos. Esse era o único lugar onde a estranha história deles poderia ser vivida.
–Temos de voltar, já está entardecendo.
– Mas ainda temos de falar sobre o assassinato dos Gordon. – Bella lembrou.
– Eu te prometo que contarei tudo o que sei, mas quero que me conheça melhor, primeiro.
– Você prometeu!
– Eu sei que prometi, e vou cumprir. Só não é o momento ainda. Por hoje chega!
– Está bem, quando for a hora você me avisa.
Bella sabia que a pior parte da história de Edward ainda estava por vir... De alguma forma estava fugindo disso.

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